Inicio este texto com paráfrases de alguns trechos do livro “Tornar-se pessoa”, de Carl Rogers.
…as pessoas são inerentemente plenas de recursos. Para Rogers, o pecado capital na terapia, no ensino ou na vida familiar é a imposição da autoridade.
…a compreensão das suas próprias dificuldades será facilitada se atravessar, na sua imaginação e nos seus pensamentos, as lutas de outros em busca da maturação.
…(um paciente) lutando para ser ele mesmo e, no entanto, com um medo mortal de ser ele mesmo. (E eu) sentado diante dele, participando da luta com toda a profundidade e sensibilidade de que sou capaz.
…é a própria pessoa que sabe aquilo de que sofre, qual a direção a tomar, quais problemas são cruciais, que experiências foram profundamente recalcadas. Comecei a compreender que, para fazer algo mais do que demonstrar minha própria clarividência e sabedoria, o melhor é deixar à pessoa a direção do próprio movimento.
…a compreensão implica um risco: se me permito realmente compreender uma outra pessoa, é possível que essa compreensão acarrete uma alteração em mim. E todos nós temos medo de mudar.
…(os pacientes) Indicavam que os seguintes elementos atitudinais na relação com o terapeuta eram responsáveis pelas modificações neles verificadas: a confiança que tinham sentido no seu terapeuta; o fato de terem sido compreendidos por ele; o sentimento de independência que tiveram ao fazer opções e tomar decisões. O procedimento do terapeuta que consideravam de maior ajuda era o de este clarificar e exprimir abertamente o que o paciente abordara vagamente e com hesitação. Por outro lado, esses pacientes estavam amplamente de acordo, fosse qual fosse a orientação do seu terapeuta, sobre os elementos desfavoráveis na relação. A falta de interesse, uma atitude distante e que afastava, ou ainda uma simpatia excessiva, eram fatores tidos como desfavoráveis. Quanto aos procedimentos, consideravam desfavoráveis aqueles em que o terapeuta dava conselhos diretos e precisos ou em que concedia uma grande importância ao passado em vez de enfrentar os problemas atuais. Os conselhos dados como simples sugestões eram captados como pertencentes a uma zona intermediária: não eram nem completamente de ajuda, nem eram de todo inúteis.
…poderei ser suficientemente forte como pessoa para ser independente do outro?
…Quando puder sentir livremente esta força de ser uma pessoa independente, então descobrirei que posso me dedicar completamente à compreensão e aceitação do outro porque não tenho o receio de perder a mim mesmo.
…serei capaz de agir com suficiente sensibilidade para que meu comportamento não seja percebido como uma ameaça?
…se eu conseguir libertar-me tão completamente quanto possível das ameaças exteriores, então poderei começar a vivenciar e a enfrentar os sentimentos e os conflitos internos que me parecem ameaçadores.
…poderei libertar-me do receio de ser julgado pelos outros?
Na maior parte das fases de nossas vidas – em casa, na escola, no trabalho – achamo-nos dependentes das recompensas e dos castigos que são os juízos dos outros. Mas não creio que façam parte de uma relação de ajuda. Uma apreciação positiva é, no fundo, tão ameaçadora como um juízo negativo, uma vez que dizer a alguém que fez bem implica que também se tem o direito de lhe dizer que procedeu mal. Quanto mais conseguir manter uma relação livre de qualquer juízo de valor, mais isso permitirá à outra pessoa atingir um ponto em que ela própria reconhecerá que o lugar do julgamento, o centro da responsabilidade, reside dentro de si mesma. O sentido e o valor de sua experiência é algo que depende, em última análise, dela e nenhum juízo exterior os pode alterar.
A Ilusão de Ajudar e o Peso na Consciência
Há algum tempo, venho desenvolvendo algumas reflexões profundas sobre o que realmente significa “ajudar” alguém. O conceito de ajuda é cheio de nuances e toca nos limites da nossa própria autonomia e da nossa capacidade de conexão. Muitas vezes, a forma como oferecemos suporte diz muito mais sobre as nossas próprias angústias do que sobre as necessidades de quem sofre.
Pessoas tem uma necessidade enorme de querer ajudar pessoas. No entanto, é preciso admitir uma dinâmica inconsciente que acontece o tempo todo: em muitas ocasiões, oferecemos uma ajuda fraca e superficial apenas para não ficarmos com peso na consciência.
Quando vemos alguém em apuros, sentimos uma angústia imediata. O ato de disparar um conselho ou uma sugestão funciona como uma válvula de escape para o nosso próprio desconforto. Nós sabemos, lá no fundo, que aquele conselho raso não resolve a situação, mas o fazemos para deitar a cabeça no travesseiro à noite e dizer: “Eu fiz a minha parte; se ela não quiser fazer, o problema é dela”. Essa é uma ação motivada pela evitação da nossa própria culpa. O problema é que as pessoas que precisam de suporte odeiam receber conselhos e sugestões vazias. O conselho rápido tira da pessoa o protagonismo da própria história e carrega uma mensagem implícita de superioridade.
Abraçar a Roseira: A Essência da Ajuda Genuína
Para mim, ajudar verdadeiramente alguém é como abraçar uma roseira. É ter a coragem de se sujar com a dor do outro, vivenciar o que ele está sentindo, mas, apesar de tudo isso, não ter o impulso imediatista de tentar resolver os problemas dele.
Quem está com um problema não precisa, num primeiro momento, da solução; precisa se sentir ouvido e acolhido. Oferecer ajuda é como gerir um conflito: eu preciso entender as dificuldades que a pessoa está passando para poder oferecer um ombro, um “porto seguro”.
Ao administrar uma mediação, o foco deve estar na relação existente entre as partes.
Ao oferecer ajuda, o foco deve estar no conflito interno da pessoa, e nunca, em nenhum dos dois casos, em consertar o “processo quebrado” que faz parecer ser a origem do conflito.
Se eu forneço solidez emocional, as próprias pessoas, casa uma a seu tempo, consertam o seu próprio processo.
É preciso ter solidez para sentar-se em silêncio ao lado de uma pessoa em um quarto escuro sem ter o impulso de falar ou acender a luz. E isso exige cautela. Tentar sentir a dor da pessoa pode ser um ato de arrogância da minha parte, pois, como nos ensina Paul Watzlawick, cada indivíduo constrói sua realidade de forma única. Eu nunca vou sentir exatamente o que o outro sente. Posso ser solidário e empático, mas o meu papel não é tomar a dor para mim, e sim validar que ela é real. Além disso, preciso da sabedoria de autores como Carl Rogers para aceitar a rigidez comportamental de quem sofre, não ficar bravo e ter a resiliência necessária para o acolhimento.
O Abismo da Comunicação: O Caso do Conselho no Hospital
Essa dinâmica fica muito clara em uma situação que presenciei: uma pessoa, viciada em doces, foi internada por complicações da diabetes. A tia dela chegou perto da cama do hospital e, simplesmente, disse que ela “não poderia comer doce porque tem diabetes”. A paciente, estressada e vulnerável, ficou extremamente brava e ríspida. A tia, por sua vez, voltou para casa indignada, sentindo que sua “ajuda” foi negada.
Esse é um caso clássico de alguém que quer ajudar, mas aborda a situação pelo lado errado. A tia desrespeitou a incapacidade da paciente. O problema ali não era a falta de informação (uma obviedade de que diabéticos não comem açúcar), mas sim a incapacidade de resistir. A paciente não ouviu um conselho de cuidado; ela ouviu um julgamento num momento em que tomava soro na veia.
Segundo a Comunicação Não-Violenta de Marshall Rosenberg, a raiva da paciente foi a expressão trágica de uma necessidade não atendida: a necessidade de acolhimento. O verdadeiro problema não é comer o doce, é não conseguir resistir a ele, e é exatamente aí que a ajuda superficial falha.
O Avesso das Boas Intenções e a Responsabilidade de Quem Ouve
Mudar a atitude de quem oferece esse tipo de ajuda inadequada é difícil, especialmente com pessoas mais velhas ou criadas em ambientes rígidos e conservadores. Elas não têm o insight de que sua comunicação é falha. É aqui que entra uma quebra de paradigma: nesses casos, a responsabilidade de interpretar a ajuda passa a ser de quem ouve.
Quem recebe o “conselho furado” precisa desenvolver a solidez de entender as severas limitações de quem o profere. Eu sou do tipo que acredita que, se o inferno existisse, não haveria uma única alma bem-intencionada lá. No inferno só tem gente mal-intencionada. Portanto, por trás de toda a agressividade e do erro de comunicação daquela tia, havia uma boa intenção e um cuidado profundo que ela simplesmente não sabia expressar de outra forma. Aceitar a boa intenção por trás de um ato desajeitado é, em si, um ato gigantesco de empatia.
O Porto Seguro no Olho do Furacão
Mas como exigir que a pessoa que está no “fundo do poço” da vulnerabilidade tenha a clareza para perdoar e traduzir essa falha de comunicação na hora da crise? A resposta é simples: nós não exigimos.
É impossível, e até injusto, cobrar que uma pessoa castigada por suas fraquezas, estresse e medo de julgamento assuma a responsabilidade pela falha dos outros no ápice da dor. O cérebro dela está em modo de sobrevivência. Tentar forçar o aprendizado racional nesse momento seria ligar a luz no quarto escuro de uma vez só, cegando a pessoa.
Nesses momentos agudos, a única ajuda que eu posso oferecer é a certeza da minha presença. Não são teorias, não são conselhos. É estar lá. Existir ao lado dela para que ela tenha o direito de estar em sua dor sem ser julgada.
A Mutação do Encontro e o Pavor da Cura
No fim das contas, oferecer ajuda verdadeira é doar uma parte de si mesmo. É renunciar a uma parte do que eu sou. Quando a ajuda é genuína, eu sempre saio mudado. A cada encontro, a renúncia das minhas certezas soma um novo elemento em mim que pertencia ao outro. A ajuda é, portanto, um processo de mutação, uma co-construção de realidade entre o ajudante e o ajudado.
Quando decido mergulhar no processo de ajuda, nunca volto a mesma pessoa e a ideia é que a outra pessoa também volte transformada.
Ao doar parte de mim nessa missão de resgate emocional, eu busco um estado que é bem descrito por Carl Rogers: “Como posso proporcionar uma relação que essa pessoa possa utilizar para seu próprio crescimento pessoal?”
Porém, essa troca intensa intimida. Existem diferentes graus de ajuda para diferentes relações, e se eu não me sinto confiante para me entregar a essa mutação, acho mais honesto nem começar. Além disso, a ajuda não depende só de mim: a outra pessoa precisa querer ser ajudada.
E aqui reside a grande tragédia e beleza das relações humanas: muitas vezes, a pessoa renuncia à ajuda pelo medo da transformação. Lembro-me de um amigo que sugeriu à mãe que parassem de fumar juntos, para se ajudarem. A resposta dela foi cair em um choro incontrolável, implorando para que ele nunca mais tocasse no assunto. O choro dela era puro pavor. O vício era a estrutura que a mantinha de pé. A mutação exigida para abandonar aquilo a assustava muito mais do que os danos do cigarro.
Entender tudo isso — abraçar a roseira, calar a própria necessidade de opinar, aceitar a comunicação falha do outro, oferecer presença no caos e, por fim, respeitar o sagrado direito de quem recusa a ajuda por medo de mudar — é o que transforma o ato de ajudar numa profunda experiência humana.
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