“Não somos seres racionais que sentem. Somos seres emocionais que pensam.”
Essa frase de Humberto Maturana (conceito muito semelhante defendido pelo neurocientista António Damásio em seu livro O Erro de Descartes (1994)), sempre ressoa na minha cabeça. Damásio diz que nós somos essencialmente emocionais e que a nossa razão tem a função de dar suporte a essas emoções. Eu concordo demais com esse pensamento.
Para entender como lidamos com os conflitos da nossa vida hoje, precisei fazer uma viagem para dentro de mim e desconstruir alguns conceitos que usamos todos os dias sem perceber. E o primeiro passo dessa jornada foi diferenciar duas palavras que andam juntas, mas são bem diferentes.
Cultura vs. Inteligência: O Armazenamento e a Ação
Você sabe qual a diferença entre cultura e inteligência?
A pessoa culta é aquela que detém conhecimento. É quem já leu muitos livros, conheceu diversas realidades, acumula informações e sabe conversar sobre os mais variados assuntos. Cultura está intimamente associada ao armazenamento de informações. É uma habilidade passiva.
Já a pessoa inteligente é aquela que faz uso dessa informação. Mais do que isso, é a pessoa que cria novas utilidades para o que sabe. É quem sabe improvisar, buscar novas saídas e criar rotas alternativas diante de um problema. Inteligência está associada à ação. É uma habilidade ativa.
Num conflito, de nada me serve ser extremamente culto se eu não tiver a inteligência para agir sobre o problema.
Progresso vs. Evolução: A Máquina e o Comportamento
O segundo passo foi esclarecer a confusão que sempre fazemos entre Progresso e Evolução. Muitas vezes nos referimos à evolução humana como progresso e vice-versa. Mas essa confusão atrapalha o entendimento do nosso lugar na linha do tempo.
Para mim, Progresso faz referência a avanços tecnológicos, que podem estar associados ao bem ou ao mal.
As guerras já foram travadas com lanças e pedras; o progresso trouxe catapultas. Depois vieram os canhões e a pólvora. O progresso gerou aviões, bombas nucleares e, hoje, drones e mísseis. Do ponto de vista ético, o impacto pode ser nocivo, mas do ponto de vista técnico, houve progresso.
A escrita também progrediu: da pedra para o papiro, do caderno para a máquina de escrever, do computador para o aplicativo que uso agora no meu celular, que converte o meu áudio em texto e utiliza Inteligência Artificial para ajudar na formatação. O progresso facilita ou abrevia o trabalho humano.
Já a Evolução está associada ao comportamento humano, à forma como nos relacionamos com o ambiente e com as pessoas que nos rodeiam.
Um exemplo marcante para mim são as diferentes versões do filme King Kong.
- Na versão de 1933, o macaco gigante era um monstro, uma besta. A regra da época era: se algo é desconhecido e não pode ser controlado, deve ser destruído. No final, as pessoas comemoram aliviadas a morte da fera.
- Na versão de 1976, já notamos uma mudança. Apesar do medo, os protagonistas desenvolvem algum tipo de conexão e demonstram grande contrariedade com a morte do animal.
- Na versão de 2005, a mulher que é raptada constrói uma relação de afeto e, diante da ameaça, coloca-se na frente do macaco para impedir que ele seja assassinado.
O cinema retrata com nitidez como o nosso nível de evolução e consciência do outro vem mudando através dos tempos. A nossa sociedade atual não tolera mais o uso da força bruta para a conquista e a dominação instintiva.
A Razão como Filtro: O Distanciamento dos Nossos Instintos Primitivos
A partir do momento em que houve uma evolução no conceito de vivência em sociedade, o nosso lado instintivo e puramente emocional mostrou que precisava ser controlado. O instinto de sobrevivência primitivo — que nos mantinha vivos na selva através do ataque, da fuga ou da intimidação — tornou-se obsoleto e até perigoso para a manutenção de uma comunidade complexa.
Aos poucos, fomos percebendo que a nossa modalidade de sociedade civilizada simplesmente não combina com o uso da força bruta para a conquista. A estrutura social que valorizamos hoje repudia comportamentos instintivos de dominação física ou psicológica e a pura demonstração de poder pelo medo. Embora essas atitudes de dominação ainda existam no universo humano (basta olharmos para as notícias), a grande virada evolutiva é que isso já não é visto como normal ou aceitável. O que antes era celebrado como força e liderança, hoje é tipificado como crime, assédio ou barbárie.
Se fizermos uma comparação entre a sociedade humana atual e a de mil anos atrás, as diferenças de comportamento são brutais. Há um milênio, a resolução de conflitos passava por duelos até a morte, invasões, execuções públicas e a subjugação absoluta do mais fraco pelo mais forte. A violência era a principal moeda de negociação. O psicólogo Steven Pinker, em sua obra Os Anjos Bons da Nossa Natureza (2011), documenta magistralmente esse fenômeno, mostrando como a humanidade vem se tornando progressivamente menos violenta e mais empática ao longo dos séculos.
Mas não precisamos ir tão longe. Se olharmos para a sociedade humana de apenas 50 anos atrás, já vemos mudanças comportamentais gigantescas. Práticas que eram normalizadas nas décadas passadas — como a agressão física para educar filhos, o assédio moral aceito como “estilo de gestão” nas empresas ou a exclusão declarada de minorias — hoje causam repulsa na maior parte da sociedade. A régua moral subiu rapidamente.
Isso significa que a razão, ancorada no desenvolvimento do nosso córtex pré-frontal, age cada vez mais como um filtro para o nosso comportamento instintivo (processado pela nossa amígdala cerebral). O nosso “eu racional” não elimina a emoção, mas avalia se o impulso instintivo é adequado para o ambiente em que vivemos.
É exatamente esse filtro moral e racional que, lentamente e a cada nova geração, vai nos distanciando dos outros animais. Deixamos de ser criaturas que apenas reagem ao ambiente para nos tornarmos indivíduos que pensam sobre as próprias reações e para estas, usam a inteligência para desenvolver as melhores alternativas, escolhendo a empatia e o diálogo no lugar da força e da dominação.
O Modelo de Liderança nos Meus Próprios Conflitos
Em 1967, em sua obra A Theory of Leadership Effectiveness, o psicólogo Fred Fiedler consolidou o Modelo de Contingência, sugerindo que não existe um estilo de liderança universalmente eficaz, e sim um estilo adequado para cada situação.
Trazendo isso para a gestão individual de conflitos — ou seja, a habilidade de cada pessoa gerir os próprios embates —, entendo que serei um ótimo gestor a partir do momento em que conseguir combinar os conceitos de cultura e inteligência, progresso e evolução. O grande desafio é aplicar essa combinação na tempestade de impulsos (racionais e emocionais) que me fazem vivo, equilibrando os níveis de emoção e razão de acordo com as necessidades e com as situações.
A minha busca diária é entender o meu nível de evolução: quanto de razão eu preciso aplicar para não anular as minhas emoções (e não me tornar uma máquina fria), e quanto de emoção eu posso deixar livre (para não me tornar um animal visceral e instintivo, refém da raiva).
A Cura para a Dependência da Validação
Dizem que, de 100 anos para cá, houve mais progressos tecnológicos do que de 100 anos atrás até o início do universo. Nosso progresso formou uma curva exponencial.
Eu vejo a evolução do nosso comportamento numa trajetória bem mais lenta.
Mesmo assim, temos uma consciência inédita sobre quem somos, sobre os nossos limites emocionais e sobre os danos que causamos aos outros.
Eu sempre afirmo que a raiz de quase todos os conflitos humanos é a ruptura na nossa sensação de pertencimento e na nossa busca doentia por validação. E por que essas rupturas doem tanto? Porque ainda não encontramos o equilíbrio saudável entre razão e emoção. Ainda somos seres extremamente emocionais que pensam muito pouco antes de reagir.
É exatamente aqui que a inteligência e a razão entram. O meu “eu racional” não existe para calar a emoção, mas para me ajudar a compreender quem eu sou. Quando o meu eu racional me faz entender que não preciso agradar a todos para sobreviver (um instinto primitivo dos nossos ancestrais), a minha dependência de validação enfraquece.
A inteligência para administrar o equilíbrio entre o coração que pensa e o cérebro que sente é o verdadeiro termômetro da nossa evolução. É ela que define se o nosso progresso será a nossa salvação ou a nossa ruína.
“O admirável progresso conseguido pelo homem, não apenas na imensidão do espaço como também na infinitude das partículas subatômicas, parece conduzir à destruição total do nosso universo, a menos que façamos grandes progressos na compreensão e no tratamento das tensões interpessoais e intergrupais.”
Carl Rogers: Tornar-se Pessoa
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