Este é o primeiro de uma série de 4 textos, nos quais vou detalhar descobertas importantes que fiz.

Estas descobertas me ajudaram a delinear uma estratégia importante sobre a mediação: a separação do processo de mediação em 2 fases: a fase da reflexão e a fase das responsabilidades. 

Também vislumbrei as 4 ferramentas principais da mediação: a ambientação, as perguntas abertas, a escuta ativa e o silêncio. Cada uma dessas ferramentas possui um universo de possibilidades, que serão explorados nos 4 textos distintos, que discorrerão sobre algumas ramificações de cada ferramenta.

Com isso, eu enxerguei uma reunião de mediação formada por 2 etapas (reflexão e responsabilidades), cada etapa contemplada pelas perguntas abertas, escuta ativa e silêncio, tudo isso tendo a ambientação (o acolhimento e o rapport) como pano de fundo.

Este texto inicia a série, mergulhando fundo nas perguntas abertas.

A sala de mediação é, por natureza, um ambiente de alta tensão. Em um cenário de conflito, as pessoas chegam aprisionadas em narrativas engessadas, carregando dores invisíveis e defesas erguidas. A comunicação entre as partes está gravemente comprometida. 

A pergunta é o início do processo investigativo. É a ferramenta que busca retirar as partes desse estado passivo-agressivo e mostrá-las a alternativa da colaboração.

O juiz faz perguntas para obter provas e encontrar um culpado, mas o mediador faz perguntas para mapear dores, identificar necessidades não atendidas e obter a matéria-prima necessária para restaurar a relação destruída.

O legado de Sócrates

O uso de perguntas para desconstruir certezas e gerar novas perspectivas não é uma invenção contemporânea. Essa ideia vem da filosofia grega, no século V a.C., através do método socrático.

A cidade de Atenas vivenciava o auge da sua democracia e efervescência cultural. Até então, a filosofia grega (com os pré-socráticos) estava focada em entender a natureza e o cosmos.

Sócrates mudou o curso da história ao desviar esse olhar do céu para o interior do ser humano. Ele passou a investigar a moral, a ética e as motivações humanas. E ele fez isso não escrevendo livros ou discursando em palanques, mas caminhando pelas praças de Atenas e fazendo perguntas aos cidadãos.

O método de investigação socrático era dividido em dois passos complementares e inseparáveis: a Ironia e a Maiêutica.

A Ironia Socrática (A desconstrução da certeza)

A palavra “ironia”, no grego antigo (eironeia), não tinha o sentido de sarcasmo ou deboche que usamos hoje, mas significava “perguntar fingindo ignorância”.

Sócrates abordava alguém que se dizia especialista em algo e começava a fazer perguntas aparentemente simples, assumindo a posição de quem não sabia nada (o famoso “Só sei que nada sei”).

Conforme a pessoa respondia, Sócrates continuava perguntando até que o interlocutor caísse em contradição e percebesse que a sua certeza absoluta era, na verdade, frágil e cheia de falhas. A ironia servia para destruir o orgulho intelectual, quebrando as barreiras da mente para que ela pudesse, de fato, aprender algo novo.

A Maiêutica (O parto das ideias)

Uma vez que o interlocutor estava desarmado de suas certezas rígidas, Sócrates iniciava a segunda fase. A palavra Maiêutica significa “a arte de partejar” (sua mãe, Fenareta, era parteira).

Sócrates dizia que, assim como sua mãe ajudava a dar à luz corpos, ele ajudava a dar à luz ideias. Ele continuava fazendo perguntas abertas para guiar a pessoa em um novo raciocínio.

A premissa revolucionária de Sócrates era de que o conhecimento verdadeiro já habita o interior do indivíduo. O papel daquele que pergunta não é “inserir” uma resposta na mente do outro, mas criar as condições para que o próprio indivíduo descubra a resposta de dentro para fora.

Não é coincidência que essa base metodológica socrática de questionamento tenha se tornado, milênios depois, o pilar de abordagens modernas. O uso de perguntas para reestruturar as narrativas engessadas presentes nos conflitos é inspirado no diálogo socrático.

Sócrates e a mediação de conflitos

Ao transpor o método socrático para a mediação de conflitos, o mediador precisa fazer algumas adaptações essenciais para proteger o ambiente emocional das partes.

Os pontos de convergência (Onde a mediação usa Sócrates)

A resposta mora no outro

Assim como na Maiêutica, a mediação baseia-se na premissa de que a solução não vem de fora (do mediador/juiz), mas deve ser “parida” pelas próprias partes. As perguntas abertas são a ferramenta desse parto. Ao utilizá-las, o mediador não impõe um acordo ou dá um conselho. Ele faz perguntas para que os próprios mediandos acessem seus interesses reais e “deem à luz” à solução do conflito. A premissa é a mesma e se mostra muito óbvia, apesar de pouco compreendida: a resposta não está com quem pergunta, está com quem responde.

A quebra do “realismo ingênuo”

O realismo ingênuo é a crença humana de que nós enxergamos a realidade de forma puramente objetiva, e que qualquer pessoa que discorde de nós é desinformada, irracional ou mal-intencionada.

A dinâmica

O mediador precisa fraturar as narrativas engessadas, primeiro conduzindo as partes à reflexão sobre os acontecimentos, apresentando novas perspectivas e possibilidades, investigando quais sentimentos e emoções estão presentes. Só então, traz à mesa os fatos, as ações, as consequências e as responsabilidades.

Assim como Sócrates separava o “parto de ideias” em 2 etapas (ironia e maiêutica), a mediação também separa a resolução do conflito em 2 etapas (reflexão e responsabilidades). 

A primeira etapa desconstrói certezas e abre portas. A segunda etapa traz ação e auto responsabilidade.

O protagonismo da investigação

Em ambos os métodos, quem faz as perguntas guia o ritmo da descoberta, mas é nas respostas que está o mapa para a pacificação.

Os pontos de divergência (Onde a mediação se afasta de Sócrates)

Apesar da raiz comum, a intenção por trás da pergunta do mediador é bastante diferente da intenção de Sócrates, que já sabia, ou buscava, uma verdade ética universal. Ele direcionava a conversa até que o interlocutor chegasse àquela conclusão específica.

O mediador atua com “curiosidade genuína”. Ele faz a pergunta sem ter a menor ideia de qual será o rumo da mediação. Isso não significa que o mediador não tem um objetivo. Ele faz perguntas e conduz a mediação para a reconstrução daquela relação quebrada. O mediador sabe onde precisa chegar, mas não sabe como isso vai acontecer.

O resgate cognitivo: Do sistema 1 para o sistema 2

Para entender o poder de uma pergunta na mesa de mediação, é preciso observar o conflito através da lente da psicologia cognitiva. Durante uma disputa, o cérebro busca atalhos para economizar energia psíquica e garantir a sobrevivência emocional.

Sob o estresse do litígio, as pessoas operam quase integralmente no Sistema 1 do psicólogo Daniel Kahneman: um modo de pensamento rápido, instintivo, emocional e altamente reativo. É neste sistema que habitam as conclusões imediatas, muitas vezes distorcidas, onde o indivíduo assume o papel de vítima e reage na defensiva antes mesmo de processar os fatos.

A verdadeira mágica da pergunta aberta é que ela atua como um “freio cerebral de emergência”.

Quando o mediador faz uma pergunta estruturada (como “De que forma você enxerga a sua presença dentro desse impasse?”), a resposta não está pronta. É uma pergunta direta, no entanto, não há ataque, não há teste. É uma busca genuína por uma resposta. O Sistema 1 não consegue lidar com essa complexidade. Para responder, o mediando é obrigado a acionar o Sistema 2: o modo de pensamento lento, analítico e deliberativo.

A pergunta aberta arranca a pessoa do “piloto automático” da reatividade e a coloca em um estado de processamento, criando o espaço mental onde as soluções pacíficas conseguem florescer.

O formato da pergunta

A qualidade da resposta que obtenho é sempre proporcional à qualidade da pergunta que faço. É através delas que o mediador explora, testa, provoca e desenha o formato do conflito.

A armadilha das perguntas fechadas

Para entender o valor da ferramenta correta, é preciso reconhecer o estrago da ferramenta errada. Em momentos de tensão, a comunicação instintivamente se encolhe e o mediador pode cair na armadilha das perguntas fechadas.

As perguntas fechadas não exploram nenhum momento da história trazida pelos mediandos, geram desgaste e dão a sensação de que a mediação não está andando.

Se o mediador pergunta “Você acha que essa foi a melhor atitude?”, o mediando pode simplesmente responder com um “Sim” defensivo, um “Não sei” evasivo, ou um sarcástico “Se você está dizendo…”. São respostas que não trazem informação útil para a resolução do conflito e o tom da resposta muitas vezes injeta ainda mais hostilidade no ambiente.

As perguntas fechadas começam, normalmente, com um pronome e permitem a esquiva de responder apenas com um “sim” ou com um “não”.

  • Você acha que aquilo foi ruim?
  • Ele te ofendeu com aquela fala?
  • Ele gritou com você?

Outra forma de pergunta fechada é iniciar a pergunta com um “por que”, pois também permite que o mediando responda com um “por que sim” ou com um “por que não”.

  • Por que aquela fala te ofendeu?
  • Por que esse comportamento te incomoda?
  • Por que você não respondeu à pergunta dele?

A única situação em que vejo utilidade para uma pergunta fechada é quando o mediador está criando um caminho para fazer uma pergunta importante, mas precisa antes de uma confirmação.

  • Você ficou irritado e foi até a sala dele para responder àquela fala que te incomodou?
  • Sim.
  • De que forma a fala dele te atingiu e quais resultados você esperava ao responder para ele?

Mais alguns exemplos de formas a serem evitadas:

  • Você se sentiu ofendido quando ele falou daquela maneira?
  • Você não acha que também errou ao gritar de volta?
  • Vocês estão dispostos a tentar um acordo sobre isso?

A assertividade das perguntas abertas

Se a pergunta fechada é um muro, a pergunta aberta é uma janela. Ela joga luz sobre o conflito, abrindo possibilidades e indicando onde é seguro pisar. Uma pergunta bem construída atua desestabilizando a rigidez das certezas de quem fala (“O que você imagina que aconteceria se…”), provoca mudanças de perspectiva e desafia a inércia.

É através das respostas às perguntas abertas que o mediador ajuda os mediandos a mapear o problema. Eles juntos desenham as bordas do conflito: onde ele realmente começa, quem ele afeta, o que é de fato o problema e o que é apenas ruído emocional. Dar contornos claros ao conflito é o primeiro passo para torná-lo administrável e menos assustador.

Com as perguntas abertas, o mediador constrói pontes mentais para que os próprios mediandos transitem da confusão para a clareza. Assim, a solução nasce de dentro do próprio indivíduo, “parida” pelas perguntas do mediador, tornando o caminho para a resolução muito mais tranquilo e sustentável.

A qualidade das perguntas abertas está na criatividade e perspicácia do mediador, pois ele precisa estar atento às informações que os mediandos fornecem e deve criar com precisão um cenário para inserir o mediando, oferecendo-lhe uma experiência sensorial, emocional ou objetiva e que lhe traga novas interpretações, novas visões e novos conceitos que podem tirá-lo da posição fixa onde se encontra.

Quando faço perguntas fechadas, estou, de certa forma, direcionando ou induzindo o mediando, pois a pergunta fechada já carrega a minha ideia da situação.

Por exemplo, na pergunta “Você se sentiu ofendido com aquela fala”, eu introduzi um adjetivo fornecido pela minha visão da situação. Esse adjetivo se tornará a âncora da conversa e poderá trazer vícios para o processo da mediação.

Quando faço uma pergunta aberta, eu não sugiro nenhuma palavra, sentimento ou reação. Entrego a responsabilidade da resposta exclusivamente ao mediando e ele responderá com as próprias palavras, buscando as próprias memórias e os próprios sentimentos.

Gosto de iniciar as perguntas abertas com “O que”, “Qual” ou “Como/De que forma”.

Vou reescrever as perguntas fechadas mostradas acima e como elas poderiam ser refeitas para enriquecer o processo da mediação.

  1. Você acha que aquilo foi ruim?
  2. Quais dos seus valores mais importantes você acha que foram feridos com aquela situação?
    (Investiga nos valores da pessoa os detalhes da sensação de incômodo)
  1. Ele te ofendeu com aquela fala?
  2. Quais sentimentos afloraram quando ouviu o que ele te falou?
    (Investiga nos sentimentos da pessoa os detalhes da sensação de incômodo)
  1. Ele gritou com você?
  2. Se tivesse que narrar a cena, como descreveria a forma como ele falou com você?
    (Retira a subjetividade da resposta e busca uma informação objetiva)
  1. Por que aquela fala te ofendeu?
  2. Quais palavras ela verbalizou que te incomodaram mais?
    (Investiga os gatilhos)
  1. Por que esse comportamento te incomoda?
  2. Qual o tipo de comportamento é esperado para que o convívio aconteça de forma colaborativa?
    (Redireciona o olhar, de uma visão negativa para uma postura positiva e colaborativa)
  1. Por que você não respondeu à pergunta dele?
  2. De que forma sua vulnerabilidade te influenciou a não responder à pergunta dele?
    (Investiga a fragilidade e a resiliência da pessoa)
  1. Você se sentiu ofendido quando ele falou daquela maneira?
  2. O que exatamente, naquela fala, tocou você de forma tão intensa?
    (Investiga os gatilhos)
  1. Você não acha que também errou ao gritar de volta?
  2. Quais ações deveriam ter sido tomadas para evitar que a discussão saísse do controle
    (Redireciona o olhar, de uma visão negativa para uma postura positiva e colaborativa)
  1. Vocês estão dispostos a tentar um acordo sobre isso?
  2. O que precisaria acontecer, de forma prática, para que vocês dois saíssem desta sala hoje sentindo que o problema foi resolvido?
    (Insere os mediandos no contexto da auto responsabilidade, buscando uma postura positiva e colaborativa)

A contextualização e a aplicação das perguntas abertas

Na condução da mediação, através das perguntas abertas, existem dois eixos fundamentais que enxergo como etapas no processo de mediação. Seguindo essas etapas, o mediador constrói o caminho de reflexão e da responsabilidade.

Para tirar o mediando da posição de rigidez, é preciso fazê-lo refletir sobre a situação. Essa reflexão significa mostrar-lhe novas visões, novas possibilidades e novas posições que ele pode assumir.

A partir do momento em que se ganha mais confiança no processo (foi retirado o estigma da culpa, desmistificada a ideia da ofensa, etc.), o mediando é conduzido para a fase da responsabilidade, quando se busca uma solução mútua para o conflito.

O eixo da reflexão (A observação e a compreensão)

A reflexão cria consciência e mapeia o território. A ideia principal da reflexão é tirar o mediando do seu estado de rigidez, investigando os sentimentos, emoções e necessidades envolvidos no conflito.

A reflexão pode ser provocada através de duas abordagens:

Foco no Outro/Sistema (reflexivas)

Convida a pessoa a sair da própria perspectiva. Normalmente, aborda a suposição de um comportamento no presente ou no futuro sobre algo que ocorreu no passado envolvendo algo ou alguém.

  • Como você imagina que ele interpretou o seu silêncio?
  • Qual direcionamento você daria se estivesse no lugar dele?
  • Que estratégias você acha que funcionariam para esse caso?
  • O que você mudaria e o que deixaria como está?
  • Supondo uma realidade na qual isso tivesse acontecido, quais seriam suas ações?

Foco no próprio mediando (auto reflexivas)

Investiga o próprio mundo interno. Normalmente trata de sensações, lembranças ou emoções despertadas por alguma situação ocorrida no passado, imaginada para o futuro ou hipotética.

  • Quais gatilhos essa fala despertou em você?
  • De que forma essa crítica atingiu você?
  • Quais são os seus valores mais importantes envolvidos nesse conflito?
  • O que você sentiu quando se deparou com aquela cena?”

O trabalho do mediador é quebrar a visão linear do conflito, quando A culpa B de forma isolada. De acordo com a visão linear, existe necessariamente um culpado a ser encontrado.

A Causalidade Circular é o outro lado da moeda: o comportamento de A afeta B, que realimenta o comportamento de A. Junto com o Pensamento Sistêmico, que olha para o todo e para as relações, e não apenas para partes isoladas, são conceitos usados pelo mediador para compreender o contexto do conflito e formular as perguntas adequadas para a situação.

De uma certa maneira, as perguntas reflexivas e auto reflexivas preparam o terreno para a introdução das perguntas auto implicativas.

Na mediação, eu vou primeiro provocar a reflexão para, depois, incentivar o movimento.

O eixo da implicação (A responsabilidade)

A implicação trata de comportamento, ação e causalidade.

As pessoas chegam à mesa de mediação, na grande maioria das vezes, com uma narrativa linear de culpa, sustentada pela posição engessada da implicação (quando o outro é visto como único culpado).

Quando a pessoa faz apenas perguntas implicativas (“Onde ele falhou?”, “Por que ela fez isso comigo?”), ela se coloca na posição de vítima. O grande perigo dessa postura é que a vítima é passiva. Ela se afasta do foco do conflito, renunciando a qualquer  responsabilidade para tentar resolvê-lo. Assim, se o problema é 100% culpa do outro, a solução também depende 100% do outro.

A preparação através do eixo da reflexão é quebrar essa visão linear da implicação (culpabilização) para poder avançar para o conceito da auto implicação.

Devido à influência do conflito, muito provavelmente o mediando não fará uma pergunta auto implicativa. Aqui entra a habilidade do mediador em fazer uma pergunta que seja traduzida mentalmente pelo mediando como uma pergunta auto implicativa.

Pergunta implicativa (Foco no outro)

Investiga a ação alheia. Paralisa ou alimenta o conflito.

A pergunta implicativa busca a culpa e foca em alguém no passado.

Exemplo linear e perigoso: “Onde foi que ele errou para causar tudo isso?”

Pergunta auto implicativa (A minha responsabilidade)

É o resgate do protagonismo. Elas retiram o indivíduo da posição de vítima, de observador passivo ou de “juiz” do mundo externo e o colocam dentro da dinâmica do problema. Implicar a si mesmo significa se colocar no enredo, reconhecendo a própria parcela de contribuição.

A pergunta auto implicativa busca responsabilidade e foca numa ação para o futuro.

Exemplo circular e construtivo: “Qual comportamento dele costuma ser o gatilho para a sua reação defensiva?”

“Provocações” do mediador Resultado auto implicativo
Como você acha que contribui para a existência desse conflito no seu relacionamento?Como eu estou contribuindo para que esse conflito no meu relacionamento se mantenha?
Qual relação você acha que existe entre sua forma de se comunicar e esse mal-entendido?O que eu deixei de comunicar que gerou esse mal-entendido?
Como você enxerga sua responsabilidade na situação atual da sua carreira?Qual é a minha responsabilidade na estagnação da minha carreira?
De que forma você enxerga sua presença na escalada desse conflito? 
ou
Como você acha que suas ações foram interpretadas pelo outro e que poderiam ter relação com a escalada desse conflito?
Qual foi a minha atitude (ou omissão) que permitiu que esse problema escalasse?

A pergunta auto implicativa pode ser desconfortável no início, pois exige abrir mão da “razão” absoluta. No entanto, ela institui o poder de participar ativamente na resolução do conflito.

Ao se perguntar “Qual é a minha cota de contribuição para que essa dinâmica destrutiva se mantenha?”, a pessoa deixa de ser refém do comportamento alheio.

Se eu posso contribuir para a resolução do problema, isso significa que eu tenho o poder de alterar o sistema mudando a minha própria postura.

O desarmamento: Separando culpa de responsabilidade

Muitas vezes, a maior dor de quem está no meio de um litígio é a sensação de invisibilidade. Quando o mediador cria espaço, através das perguntas, para que as angústias sejam verbalizadas, a dor deixa de ser um fantasma solitário e ganha contornos na mesa. Garantir que as partes sejam ativamente ouvidas devolve o significado e a dignidade ao indivíduo.

Na nossa cultura, a palavra responsabilidade é frequentemente confundida com culpa punitiva. 

Quando se fala em responsabilidade, surge um pensamento automático muito rígido: “Se eu admitir que contribuí para isso, eu serei o vilão da história e serei penalizado”.

A culpa olha exclusivamente para o passado e exige um veredito absoluto. Ela congela a dinâmica relacional, pois instintivamente ninguém quer sentar no banco dos réus.

O mediador precisa materializar e distinguir essas duas palavras na mesa, separando-as e mostrando que o mediando não é obrigado a carregar a culpa, pois aquele espaço não é um tribunal.

Ao tirar a culpa, o mediador entrega a responsabilidade ao mediando, que reconhece sua parcela na engrenagem do conflito e descobre que tem o poder prático de mudá-la. Ele deixa de ser refém.

A responsabilidade tira o foco da moralidade e mira na assertividade.

Assumir responsabilidade não é assinar uma confissão de crimes, é compreender como a sua forma de agir retroalimenta a atitude da outra pessoa.

CaracterísticaA Lógica da Culpa (Implicação)A Lógica da Responsabilidade
(Auto implicação)
TempoPassado (Foco no erro)Futuro (Foco na resolução)
NaturezaMoral, linear e punitivaAssertiva, circular e sistêmica
ResultadoDefesa, paralisia e vitimismoMovimento e autonomia

Historicamente, o estoicismo do imperador Marco Aurélio, defende a “dicotomia do controle”: a divisão radical entre o que não podemos controlar (o comportamento do outro) e o que controlamos (a nossa própria resposta e responsabilidade). A pergunta auto implicativa é a aplicação pura dessa sabedoria. Ela liberta o indivíduo da necessidade da mudança alheia.

Avançando para o pensamento contemporâneo, o autor Nassim Nicholas Taleb cunhou o conceito de Antifragilidade para descrever aquilo que não apenas resiste ao caos, mas que cresce e melhora por causa dele. Na mediação, o conflito é o estressor e a responsabilidade é a evolução. 

No entanto, para alcançar esse estado antifrágil, Taleb introduz um princípio ético inegociável: a necessidade de colocar a Pele em Jogo.

A premissa dele é simples e implacável: não existe evolução, justiça ou equilíbrio em um sistema onde as pessoas não arcam com as consequências de suas próprias decisões.

Taleb usa o exemplo dos engenheiros na Roma Antiga: eles eram obrigados a dormir debaixo das pontes que construíam. Isso é ter a pele em jogo. Se a ponte caísse, eles pagariam o preço.

O estresse do conflito só é resolvido quando os envolvidos assumem a simetria da responsabilidade. A pergunta auto implicativa é a ferramenta do mediador que inspira o mediando a colocar a pele em jogo. Ao responder “Como o meu comportamento retroalimentou esse problema?”, a pessoa para de apenas criticar a atitude do outro e assume a sua parcela de responsabilidade.

Na mediação, colocar a pele em jogo significa assumir que a minha fala, o meu silêncio ou a minha reatividade geram impactos reais no sistema e na vida do outro. A auto implicação não é apenas uma técnica de comunicação, é uma postura ética. Só quem coloca a própria pele em risco na dinâmica relacional tem o verdadeiro poder (e a legitimidade) para exigir mudanças e construir um acordo.

Próximo capítulo: o silêncio como agente impulsionador

Dominar a arte da pergunta é o que permite ao mediador dar a ignição no processo de cura de uma relação. No entanto, fazer uma pergunta brilhante perde todo o seu poder se o profissional não souber o que fazer nos segundos exatos que se seguem ao ponto de interrogação.

Realizar uma boa mediação é aceitar que não curamos o passado de ninguém. No entanto, quando posicionamos as palavras corretas sobre a mesa e utilizamos as perguntas abertas, entregamos aos indivíduos o maior presente possível: a autonomia para redesenhar o seu próprio futuro.

Uma pergunta lança a bóia no oceano. Mas o que acontece enquanto o mediando aciona o seu próprio Sistema 2 e processa o impacto dessa reflexão? No nosso próximo artigo, exploraremos a ferramenta mais ensurdecedora e necessária da mediação: O Silêncio — e como suportar a tensão desse vazio é fundamental para que a verdadeira resposta possa nascer.

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