A maneira como as pessoas me veem e a opinião que formam a meu respeito estão diretamente associadas às coisas que comunico e à forma como me comunico. Assim como eu, todas as pessoas têm uma visão de mundo, uma opinião sobre as coisas e uma forma própria de enxergar as respostas. A maneira como escolho transportar todo esse conteúdo interno para fora é o que determina como o mundo me enxerga. Adaptando a célebre máxima cartesiana “penso, logo existo”, o que resume a existência social de cada um é aquilo que expressamos.
Ninguém gosta ou desgosta de mim por causa da minha altura, do meu cabelo, da maneira como me visto, da profissão que escolhi, do timbre da minha voz ou dos assuntos que me cercam; as pessoas gostam de mim, principalmente, pela forma como eu comunico tudo isso.
A Roupa, a Postura e a Sutileza da Comunicação
Isso significa que a forma como me visto não é simplesmente a escolha de uma roupa que combine com determinada ocasião, que caia bem ou que tenha o tamanho correto. É muito mais do que isso: a roupa que visto comunica algo a meu respeito. As palavras que utilizo, o meu olhar, a forma como ando e tudo o que faço dizem algo sobre mim. Toda essa comunicação é absorvida pelas pessoas de maneira sutil, sem que elas sequer percebam.
Muitas vezes, alguém diz que não gosta de mim e justifica dizendo que “o santo não bateu”. Na maioria das vezes, quase sempre, isso acontece porque algo que a minha existência comunica não foi bem recebido pela outra pessoa.
Uma comunicação não é bem recebida quando se confronta com algum valor ou crença que o outro carrega. Isso não significa que alguém esteja certo ou errado; significa que existe um conflito de valores ou crenças. Esse estranhamento — como não concordar com a maneira como me visto — ocorre muitas vezes sem que as próprias pessoas se deem conta de que houve uma falha na recepção da mensagem transmitida. Quando sou eu quem diz que o santo não bate com alguém, sei que, internamente e até de forma subconsciente, vi algo naquela pessoa que entrou em conflito com as minhas próprias crenças ou valores.
Autenticidade e o Cuidado com o Contraste
Gosto de ser autêntico. A minha visão de autenticidade significa não aderir ao efeito manada e ser capaz de justificar legitimamente um comportamento que difere da maioria. Se algo em mim diverge do padrão e não causa prejuízo a ninguém, considero isso uma expressão legítima de autenticidade.
No entanto, gosto de tomar o cuidado de não apresentar um contraste muito grande com o ambiente que me rodeia, pois isso pode chocar as outras pessoas e criar um efeito de rejeição a meu respeito. Gosto de ser autêntico desde que eu não crie resistência desnecessária nos outros. Tudo isso está estritamente associado à maneira como me comunico. Em última instância, eu sou o que eu comunico.
O mais interessante é que a minha comunicação — a maneira como mostro ao mundo quem sou, o que sou, o que quero e o que gosto — é uma escolha. Muitas vezes, essa escolha precisa ser educada e treinada até virar um hábito consciente. O fato é que não são as escolhas que me escolhem, sou eu que determino as minhas escolhas. São elas que definem o conteúdo e a forma daquilo que vou comunicar, esculpindo o meu lugar no mundo por aquilo que faço, mostro e transmito.
Os Três Tipos de Comportamento Diante do Ambiente
Da mesma maneira que tenho algo para mostrar ao mundo, preciso prestar atenção em como o ambiente reage a tudo isso se quiser fazer parte dele. Com relação a essa dinâmica, identifico três tipos básicos de comportamento:
- O Sincericida: É a pessoa que fala o que pensa e “escuta quem quer”, sem se preocupar com as consequências. O mais importante para ela é poder expressar sua opinião, ignorando completamente como os outros reagirão.
- O Omisso: É a pessoa que concorda com tudo e não se impõe, conhecida justamente pela sua discrição passiva.
- O Interativo Consciente: É a pessoa que interage ativamente com o meio onde se encontra. Essa interação significa transmitir informações e coletar os dados resultantes dessa emissão. Essa troca ajuda a posicionar o indivíduo de maneira saudável no grupo.
Uma frase popular que define bem essa postura é quando eu “decido dançar conforme a música”. Isso significa entender as necessidades e a cultura do meio onde me encontro e aprender a transmitir aquilo que sou de maneira que o ambiente absorva a informação sem gerar conflitos. Dessa forma, tento mostrar quem sou e o que quero sem fazer com que as pessoas se sintam ameaçadas, gerando nelas um interesse genuíno pelo que transmito.
Se faço parte de um meio onde as pessoas não prestam atenção nas informações que transmito, preciso ler essa reação do ambiente e me adequar sem deixar de ser quem sou. Se percebo que estou em um ambiente onde as pessoas não dão importância à minha mensagem, preciso ler essa reação e adequar a minha linguagem sem jamais abrir mão da minha essência. O conteúdo permanece o mesmo; o que muda é a embalagem da comunicação para que ele se torne aceitável e compreensível para os ouvintes. A forma da comunicação é o que importa nesse momento.
Normalmente, para facilitar a comunicação, procuramos ambientes compatíveis com nossos hábitos e gostos — por exemplo, se estou aprendendo a tocar guitarra, procuro pessoas que tocam guitarra ou um ambiente de músicos, pois ali já existe um assunto em comum.
Muitas vezes, quando alguém se ressente por achar que “ninguém gosta dela” ou sente que não pertence a um lugar, esses fatores negativos podem decorrer de falhas na própria comunicação.
A Responsabilidade de Ser Aceito: O Professor da Própria História
Eu posso transmitir um pensamento de diversas formas: existe uma maneira que fará com que as pessoas aceitem e me recebam bem, e existe outra que gerará reações negativas e resistência imediata.
Para encontrar o meu lugar na sociedade, preciso agir com inteligência e calcular meus gestos. Eu escolho ser bem recebido. É lógico que não vou deixar de ser quem sou para agradar, mas posso escolher transmitir a minha essência de uma maneira que as pessoas possam compreender.
É quase como ser um professor da minha própria história de vida: o grande desafio é ensinar às pessoas o que sou sem fazer com que eles ergam barreiras defensivas.
Conheço pessoas que não têm essa preocupação de ser aceitas. Elas falam o que querem e depositam na sociedade toda a responsabilidade de aceitar ou não suas opiniões. Nessas situações, a pessoa se exime da responsabilidade da convivência e, quando sua comunicação choca com a cultura local, culpa a sociedade por não aceitá-la como ela é. Contudo, há um detalhe: da mesma maneira que a sociedade teve dificuldade de aceitar os hábitos dessa pessoa, o fato de ela, de forma consciente, se recusar em encontrar uma forma adequada de se comunicar demonstra que ela própria também não aceitou a cultura da sociedade.
A maneira como penso é que, se quero ser aceito, é minha responsabilidade iniciar esse processo de acolhimento.
Posso escolher não ser aceito, e tenho esse direito, desde que arque de forma consciente com o isolamento que essa escolha traz. O que não posso é exigir aceitação sem assumir a responsabilidade pela forma como me comunico.
Gostar de mim não acontece por passe de mágica. Eu poderia dizer que “as pessoas têm que me aceitar do jeito que sou” e até concordo com a essência disso, mas existem formas adequadas de mostrar quem sou. Se eu escolher a linguagem errada, as pessoas não vão me aceitar. Todo lugar tem sua cultura, seus hábitos e costumes próprios. Cabe a mim a responsabilidade de aprender a me comunicar, de modo que me entendam e me aceitem, sem que eu precise deixar de ser quem sou.
Isso dialoga profundamente com o conceito de “fachada” e com a sociologia dos papéis sociais estudada por Erving Goffman em A Apresentação do Eu na Vida Cotidiana. Se eu tiver consciência de que uso os papéis sociais de forma estratégica para ser aceito e estabelecer uma comunicação saudável sem perder minha identidade, consigo transitar por múltiplos ambientes de maneira natural. Quando me pergunto como quero que me vejam e o que quero que pensem de mim, somando essas respostas às minhas características genuínas, encontro a chave para ser aceito. Esse assunto foi abordado nos artigos Quem eu sou vs. quem eu preciso ser: a responsabilidade na mediação de conflitos e Quem eu sou vs. quem eu preciso ser: a responsabilidade na gestão dos próprios conflitos.
O Circuito Constante da Troca (Determinismo Recíproco)
Estar perto de pessoas é uma troca e uma mistura constante. A minha comunicação não se resume apenas às palavras que falo. Quando recebo uma informação, meu pensamento gera uma reação no meu corpo, e essa reação se transforma em nova comunicação. A todo momento, eu recebo informações, processo-as, reajo e transmito o meu entendimento.
Essa dinâmica reflete com precisão a Teoria Social Cognitiva de Albert Bandura, que aborda o conceito de determinismo recíproco: o nosso comportamento, os fatores cognitivos e o ambiente operam de forma interativa e contínua, moldando-se mutuamente.
Não posso simplesmente achar que devo falar e que o mundo tem a obrigação de ouvir e entender passivamente. Quando tomo consciência de que estar em um ambiente é um ciclo contínuo de receber, processar e transmitir, passo a usar a racionalidade em prol de uma convivência saudável.
A partir do momento em que tomo consciência de que frequentar um ambiente é um ciclo constante de receber, processar e transmitir, e que são as minhas escolhas que determinam a forma como me veem, introduzo a racionalidade em prol de uma convivência saudável. Há um efeito cascata: quanto mais bem recebido sou e quanto mais racionalmente faço minhas escolhas em busca de uma convivência legítima, melhores são meus relacionamentos e maior é a facilidade para me comunicar.
Assim como tenho dificuldade para aceitar ideias que se confrontam com os meus valores, os outros também passam pela mesma barreira com os meus pensamentos. Não há nada de errado nisso; o respeito mútuo surge quando compreendo que, assim como desejo que minhas ideias sejam aceitas, as pessoas buscam o mesmo, evitando conflitos de valores desnecessários.
Se levarmos isso para uma situação extrema — como dialogar com espectros políticos opostos —, tenho certeza de que consigo me aproximar de pessoas que pensam de forma absolutamente diferente da minha e escolher um comportamento que expresse minhas ideias sem que elas precisem se defender de mim.
O Centro Gravitacional da Mensagem
O sucesso da minha comunicação ocorre quando encontro elementos que convergem em prol de uma única ideia. Essa expressão compreende um conjunto completo:
- O conteúdo da fala e a escolha precisa das palavras;
- A roupa que visto e a minha aparência geral;
- O corte de cabelo e o estilo da barba;
- A postura corporal (seja ereta e altiva, ou levemente curvada com os ombros recolhidos).
Tudo isso transmite uma ideia. Para que funcione, preciso entender o que quero transmitir e garantir que os elementos escolhidos convirjam para o mesmo objetivo. Quando opero com esse pensamento objetivo, as chances de ser compreendido e de ter minhas ideias aceitas disparam, permitindo que eu me estabeleça com naturalidade no ambiente que frequento.
Para estruturar essa eficácia, faço a mim mesmo duas perguntas de maneira objetiva:
- O que eu quero transmitir? (Este será o centro gravitacional da minha comunicação).
- Quais elementos (verbais e não-verbais) vou utilizar para transmitir essa ideia?
No próximo artigo, continuarei este assunto, aprofundando-me um pouco mais no estudo da linguagem verbal e da linguagem não verbal.
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