A confiança é a condição primordial para qualquer relação humana.
Do Messias de Richard Bach ao Mediador Moderno: O Dilema da Autonomia
Certa vez, li um livro chamado Ilusões, de Richard Bach. Ele conta a história de um “Messias contemporâneo” que trabalhava como aviador de voos turísticos. Ele escolheu essa profissão estrategicamente: ela permitia que ele mudasse de cidade com facilidade.
O problema era que, depois de algum tempo em um lugar, as pessoas descobriam seus milagres e passavam a depender daquele messias para tudo. Elas paravam de lutar, de se esforçar e de viver a própria vida, perdendo a autonomia. Nesse momento, ele se via obrigado a fugir para outra cidade e recomeçar, para não se tornar uma muleta para a existência alheia.
Hoje, em 2026, olho para a minha formação em mediação de conflitos através dessa lente. Embora eu seja formado na área, olho para a mediação com cautela. A mediação é uma ferramenta belíssima, mas deve ser um meio, nunca um fim, como um serviço que acaba gerando dependência, onde as pessoas não conseguem mais gerir seus próprios dilemas, dependendo de um terceiro para mediar qualquer desavença mínima, renunciando à gestão da própria vida.
Pela minha lente, a mediação deve servir para dar ferramentas para que as pessoas aprendam a resolver seus próprios conflitos e sigam adiante. No entanto, vejo a mediação se tornar quase uma “moda”, e em alguns casos, servindo como “remédio” para nutrir o ego do próprio mediador, que se auto condecora “super resolvedor dos problemas dos outros”.
A Cruzada pela Gestão de Conflitos
Meu esforço atual não é disseminar a mediação, mas sim a gestão de conflitos pois, em última instância, somos gestores de conflitos e principalmente, dos nossos próprios conflitos. Existe uma diferença crucial: a mediação, assim como a judicialização, ainda exige uma terceira pessoa. Embora o mediador apenas auxilie (ao contrário do juiz, que determina), ainda considero um esforço supervalorizado sempre depender de um terceiro para resolver algo que é meu.
Ninguém conhece minhas fraquezas, virtudes, manias e a minha visão de mundo melhor do que eu. Ninguém interpreta (ou deveria interpretar) minha realidade melhor do que eu.
No meu entendimento, o grande impedimento para a gestão dos próprios conflitos é o envolvimento direto com conflitos e com dores dos outros e que podem nos atingir. Nosso instinto de defesa nos faz querer distância dos problemas alheios — e dos nossos. Mas, para gerir um conflito de verdade, precisamos encarar o que chamo de Personagem Social.
O Peso das Máscaras e o Medo do Exclusão
O personagem social é o papel que criamos para sermos aceitos em grupos sociais. Ele ganha força pelo medo visceral que temos de não sermos merecedores da participação ou de sermos expulsos de um grupo.
Para a sociologia, esses são os papéis sociais e, para enriquecer o conceito, trago alguns nomes importantes.
O sociólogo canadense Erving Goffman é o criador da Perspectiva Dramatúrgica. Para ele, a vida social pode ser vista como um teatro, onde todos nós tentamos gerenciar as impressões que os outros têm de nós.
Ampliando um pouco a visão, o sociólogo francês Pierre Bourdieu traz os conceitos de Campo e Habitus, que explicam por que moldamos nossos personagens dependendo de onde estamos.
A sociedade é dividida em “campos” autônomos (o campo da educação, o círculo da música, o ambiente corporativo).
Para pertencer e ser aceito em um campo, você precisa incorporar o Habitus daquele grupo — um conjunto de comportamentos, valores, linguagens e posturas.
Sob essa lente, o personagem social não é uma falsidade ou uma mentira, mas uma “bagagem cultural” exigida para sobreviver naquele ambiente. A neutralidade na mediação de um conflito, por exemplo, não anula a personalidade de quem conduz a conversa, mas é o habitus necessário e esperado naquele campo específico para que a mediação tenha legitimidade.
Pensadores dessa linha, como George Herbert Mead, defendem que não existe um “eu” puramente isolado. Nós construímos quem somos através das interações. O nosso personagem social é uma resposta direta à expectativa do grupo. Se um círculo exige que você seja o ouvinte apaziguador e outro exige que você seja incisivo, você adapta sua performance para garantir a coesão social.
Minha filha, que hoje tem 10 anos, ainda vive vínculos sociais bem reduzidos, com colegas de classe e algumas crianças da nossa rua. Mas o sentido de pertencimento a grupos ainda não é muito forte nela, pois ainda é dentro de casa que ela encontra o maior sentido de pertencimento a um grupo social. Contudo, sei que, daqui para frente, ao entrar em novos círculos — dança, inglês, esportes —, ela começará a construir suas personas para se adequar a cada ambiente. É um passo inevitável da vida adulta.
O fato é que, quanto mais grupos frequentamos, mais personagens criamos. As dificuldades aparecem quando nos acostumamos tanto com essas máscaras que quem somos de verdade perde relevância. E o conflito real não acontece entre os personagens; ele explode lá no “subsolo”, onde habita nosso “eu verdadeiro”.
Uma grande dificuldade que eu passei a enxergar, principalmente depois de ter me formado em mediação de conflitos, é a força que o nosso personagem social tem para permitir conflitos e até para dificultar a resolução deles.
É o medo do não pertencimento e a sensação de que seus personagens sociais enfraqueceram que leva as pessoas a perderem o controle.
A Coragem de Ir para o Subsolo
Minha cruzada atual é oferecer ferramentas para que as pessoas se livrem do peso desses personagens e recuperem o controle de suas vidas. Se as nossas personas forem mais fortes do que nós, deixamos de ser os donos do nosso destino. Por que não podemos ser aceitos nos grupos sendo quem somos de verdade?
Administrar um conflito de verdade exige a coragem de se despir, parcialmente que seja, desses personagens. É um lugar de exposição e vulnerabilidade. É preciso olhar no olho do outro, o que é dificílimo, pois, ao renunciar ao personagem, minhas próprias imperfeições ficam expostas e começam a me machucar, assim como as imperfeições do outro também me atingirão. Mas é nessa troca de vulnerabilidades que as soluções reais aparecem. Por isso, gerir um conflito olhando apenas para o personagem social é inútil.
A solução mais fácil — a lei do menor esforço — tem sido terceirizar (e isso é um grande indicativo do quanto ainda precisamos entender as relações interpessoais e intrapessoais para amadurecer o suficiente para nos apropriarmos da responsabilidade de gerir nossos próprios conflitos). Queremos que um mediador, um advogado ou um juiz resolva a situação para evitarmos a dor de nos mostrarmos como somos. Escondemo-nos atrás de caminhos institucionais, como punições e processos disciplinares, para não termos que lidar com o ser humano à nossa frente.
É o que acontece quando alguém exige um pedido público de desculpas.
Não se administra um conflito através da humilhação ou da vingança.
Exigir uma retratação pública — obrigando o outro a repetir o que eu quero ouvir em vez do que ele realmente pensa — não passa de uma demonstração de poder que agrava o conflito. Essa atitude não soluciona o embate; apenas silencia e anula a outra pessoa à força.
Aquele personagem foi criado para ser aceito. Ao ser forçado a admitir publicamente um erro, a sua função social deixa de fazer sentido e ele sente que está perdendo o direito de pertencer ao grupo. Isso gera um ódio ainda mais profundo na pessoa que habita por baixo da máscara.
Minha intenção hoje é mostrar que esses personagens sociais precisam ter limites; eles não podem ser mais fortes do que nós.
Quando eu entrego minha vida para as minhas personas, eu perco o controle. Os círculos sociais passam a ditar as regras e eu me anulo por medo da exclusão.
Quando eu terceirizo as decisões para outra pessoa, perco o direito de escolher as melhores alternativas para solucionar meus conflitos.
Ser Eu Mesmo: O Trabalho Mais Difícil
Meu dilema hoje é encontrar formas para incentivar as pessoas a buscarem autonomia e coragem para encarar os próprios conflitos. Coragem não é a ausência de medo; coragem é, apesar do medo, preferir encarar a situação do que entregar sua vida nas mãos de um terceiro.
Eu não faço propaganda da mediação de conflitos “messiânica” por uma questão de honestidade comigo mesmo. Se às vezes eu mal me sinto competente para gerir meus próprios conflitos, como me responsabilizaria integralmente pelos conflitos dos outros? Não quero gerar seres dependentes e não autônomos.
Resolver um conflito “de máscara” é se enganar. A única forma de encontrar um resultado verdadeiro é através desse processo lento e doloroso. É ali, na troca de imperfeições, que as soluções reais aparecem.
Essa troca de imperfeições exige uma condição que soa como uma aposta arriscada, pois me colocará em grande exposição e vulnerabilidade: a eliminação de qualquer grau de hierarquia e relação de poder desigual.
Dominar uma relação de poder desigual exige a encarnação de um personagem social forte, mas totalmente ineficaz para a gestão dos próprios conflitos.
Eu não tenho certeza do quanto conseguiria me “despir” de qualquer personagem social e ser o mais transparente possível, mas tenho certeza que um personagem social que transmite força e autoridade é uma das piores escolhas para partir para a resolução de um conflito.
Para que eu possa propor a autonomia do outro na gestão de conflitos, ele precisa se sentir seguro o suficiente para abandonar alguns personagens sociais (expor-se e tornar-se vulnerável) para ter condições de negociar e atender às necessidades do seu eu verdadeiro. Isso só acontecerá numa relação de igualdade, pois eu também precisarei me despir dos meus personagens sociais e tornar-me vulnerável, oferecendo segurança e aceitação, para que a conversa flua e convirja para um lugar comum. Para que isso funcione, eu trago uma regra comigo: tudo o que quero pedir, eu ofereço antes.
Parece confuso, mas para uma relação, funciona muito bem. Se que quero ser respeitado, eu respeito antes. Se eu quiser atenção, eu ouço atentamente antes. Se que quiser que o outro tenha autonomia, eu ofereço segurança e autonomia antes. Se eu quiser que o outro verbalize suas necessidades, eu verbalizarei as minhas antes. Se eu quiser propor vulnerabilidade, tornar-me-ei vulnerável antes.
Ser eu mesmo e estar o mais próximo possível do outro é a parte mais difícil de gerir qualquer conflito, é um processo lento, trabalhoso e doloroso, mas é o caminho que traz um resultado verdadeiro e nos permite não fugir das pessoas e da vida.
“(Sobre aceitar-se), parece-me válido pelo curioso paradoxo que encerra, pois, quando me aceito como sou, estou me modificando – não podemos mudar, não nos podemos afastar de quem somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos.”
Carl Rogers: Tornar-se pessoa
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