Eu sou um entusiasta da resolução de conflitos!
Comecei a minha jornada pela mediação de conflitos, mas hoje enxergo a resolução de problemas de uma forma muito mais ampla: como uma possibilidade permanente, e não apenas como uma ação isolada para um momento específico de crise. Para mim, a resolução de conflitos é um comportamento. É um hábito que pode (e deve) ser praticado e vivenciado em todos os momentos da nossa vida.
A Ilusão da Civilização
A grande dificuldade — o obstáculo central que nos impede de vivenciar a paz permanentemente — é que fomos criados para nos defender. Fomos educados a não ver a discordância como algo normal. Diante do atrito, a nossa reação instintiva é a disputa, a posse e a busca pelo controle.
Essa herança genética, herdada dos nossos ancestrais (que necessitavam lutar e dominar para sobreviver) e transmitida através da educação geração após geração, perdura até hoje. No meu modo de ver, isso é o que nos impede de sermos, de fato, uma espécie plenamente evoluída.
Ainda somos seres pré-históricos disfarçados de cidadãos civilizados debaixo de nossas roupas modernas, dentro de carros tecnológicos e casas aconchegantes. Basta a pressão certa, no ponto certo, para voltarmos a rugir e a lutar por alimento.
A Verdadeira Evolução Humana
Historicamente, consideramos como “grandes evoluções” o domínio do fogo, a fixação das habitações (que formou as sociedades) e a escrita (que permitiu a passagem do conhecimento). Mas, no meu entender, a evolução mais importante é a que estamos vivenciando e tentando consolidar agora: o entendimento das nossas próprias emoções.
É o domínio das emoções que genuinamente nos separa dos outros animais. Esse entendimento molda uma forma de comportamento que, agora sim, podemos chamar de civilizado. Afinal, brigar por uma vaga no estacionamento ou por um resto de animal morto não apresenta muitas diferenças do ponto de vista comportamental; em ambos os casos, estamos concentrados apenas na “casca” do conflito, a camada mais superficial e que mais machuca.
Quando entendemos as emoções, as motivações e as origens das nossas diferenças, conseguimos com muito mais facilidade compartilhar — ou até ceder — a vaga no estacionamento.
A resolução de conflitos está dentro de cada um de nós. É responsabilidade do indivíduo fazer reverberar essa postura no seu círculo social e na sua sociedade, transformando o comportamento coletivo e criando um lugar psicologicamente e emocionalmente seguro.
Os Pilares do “Comunicação Segura”
Neste blog, citarei diversos autores para justificar e embasar as teorias aqui apresentadas. No entanto, três pensadores chamam mais a minha atenção, pois a minha forma de enxergar o mundo se alinha perfeitamente com as teorias deles. São as minhas principais inspirações para batizar este espaço de Comunicação Segura:
- Carl Rogers (A Aceitação Incondicional): Ele nos ensina sobre a aceitação genuína do outro. Essa linha de pensamento conversa diretamente com a filosofia estoica de Marco Aurélio (que diz que se algo externo me machuca, sou eu quem permito ser machucado, pois o controle deve vir de dentro) e com as pesquisas de Brené Brown sobre a vulnerabilidade, que tem forte relação com a vergonha e a culpa. Controlando as minhas emoções, fico livre para aceitar o outro.
- Paul Watzlawick (Conteúdo vs. Relação): Ele postula que toda comunicação tem um conteúdo e uma relação. O conteúdo é a parte superficial, fácil de enxergar e de gerar atrito. Já a relação, que não necessariamente tem a ver com o motivo da briga, é o verdadeiro elo de ligação entre duas pessoas. O foco deve estar na relação.
- Amy Edmondson (Segurança Psicológica): Ela traz a ideia de que, quando há honestidade e transparência nas nossas ações, há menos medo nas relações. E, consequentemente, há um surgimento muito menor de conflitos.
Uma Comunicação Segura envolve exatamente isso: o foco na relação (Watzlawick), a aceitação incondicional e o controle da própria vulnerabilidade (Rogers), e o respeito à transparência e à legitimidade nas relações (Edmondson).
O Meu Caderno de Anotações
Falarei sobre vários outros psicólogos e pensadores que enriquecem este universo. São lições fáceis de entender na teoria, mas incrivelmente difíceis de aplicar na prática. Para perceber os resultados, é necessário desenvolver tolerância, resiliência, autoconhecimento, curiosidade sobre o comportamento alheio e, principalmente, um desejo firme de estabelecer relações seguras.
Tratarei de diversos assuntos, tentarei derrubar alguns mitos e revisarei conceitos que considero duvidosos.
Este blog é o caderno de anotações nos meus estudos sobre resolução de conflitos. Nele, me debruçarei sobre todos os temas que me chamam a atenção e que me ajudam a entender melhor esse universo tão fascinante, tão desconhecido e tão desafiador.
Iniciemos!
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