O Abismo Entre Errar e Fazer o Errado
Há algum tempo, durante um curso de gestão de pessoas, ouvi do instrutor uma frase que me marcou: “O problema não está em errar. O problema está em fazer o errado.”
Embora possa não ficar tão claro em uma primeira lida, logo percebi que essas duas ideias são diametralmente antagônicas.
Eu entendo o “errar” como a ação de alguém que tentou fazer a coisa certa e não obteve sucesso. Tentar acertar carrega consigo pelo menos dois grandes méritos: primeiro, a simples disposição de quebrar a inércia e decidir agir; segundo, o comprometimento genuíno com o que é correto. Buscar o certo, mesmo cometendo falhas no percurso, tem o peso irrefutável da moral, da ética, da honestidade e da lealdade.
Por outro lado, quem “faz o errado” não está, de fato, errando. Pelo contrário, essa pessoa está acertando o seu próprio alvo, pois, desde o início, havia ali a intenção deliberada de cometer o erro. Se ela obtiver êxito e concretizar o que planejou, conseguiu exatamente o que queria. Só que, nesse caso, ter êxito significa chafurdar no ilícito, no irregular, no clandestino e no desleal.
A Grande Injustiça das “Boas Intenções”
Certamente você já ouviu a famosa frase: “O inferno está cheio de boas intenções”. Perdoe-me a franqueza, mas eu odeio essa expressão. Poucas citações carregam tanta injustiça quanto essa.
Aquele que erra zelando por uma boa intenção tem uma probabilidade enorme de tentar fazer o certo novamente. E com uma grande vantagem: cada erro cometido é uma porta inútil que se lacra para sempre e um passo certeiro dado em direção ao sucesso. Quem faz o errado, por sua vez, alimenta a intenção nociva desde o início e acerta intencionalmente um caminho que não deveria ser seguido.
Para mim, os fins não justificam os meios e não há sequer uma alma bem-intencionada no inferno. O que importa, e o que define tudo, é a intenção. No direito, essa é a clássica diferença entre a culpa (o erro sem intenção) e o dolo (a vontade deliberada de cometer o ato). É a intenção, e não o erro em si, que determinará quais consequências precisarei enfrentar por um ato falho.
Há uma história, provavelmente didática, em que um homem pergunta a Thomas Edison como ele conseguiu manter o interesse aceso após mil tentativas fracassadas de criar a lâmpada. Edison respondeu que precisava acertar apenas uma vez, e que cada erro era uma tentativa a menos o separando do êxito; ele apenas havia descoberto 999 maneiras de não construir uma lâmpada.
Agora, imagine o absurdo que seria se Thomas Edison fosse deportado para o inferno logo no seu primeiro erro. Quantos talentos não são desperdiçados diariamente pela supervalorização do erro, sem que se olhe adiante ou ao redor?
A Ilusão da Punição
Se alguém erra tentando fazer o certo e recebe uma punição severa — como “ir para o inferno”, figurativamente falando —, qual será a motivação dessa pessoa para tentar acertar de novo? Nenhuma.
Isso me leva a confessar que o sentimento que alimento pela ideia de “inferno” (e pelas punições severas em geral) é a mais pura indiferença. E o motivo é simples: eu não acredito na punição como uma força transformadora legítima.
Toda punição é uma força imposta de fora para dentro. A transformação de fora para dentro só é bem-vinda quando é motivacional; a imposição agressiva apenas neutraliza qualquer efeito positivo. Impor uma punição pode até mudar o curso do corpo físico de alguém ou o seu comportamento imediato por medo, mas a mente e o coração dessa pessoa continuarão com suas convicções mais inabaláveis do que nunca.
Parafraseando Gandhi: “Você pode me acorrentar, você pode me torturar, pode até destruir o meu corpo, mas você nunca vai aprisionar a minha mente.”
A única forma de transformar a mente e o coração de maneira legítima — de dentro para fora — é através da empatia e do exemplo. E isso definitivamente não existe no inferno.
A única “utilidade” do inferno, se é que posso colocar desta forma, é satisfazer o ego de seu zelador através do sofrimento eterno das almas condenadas,. Em outras palavras, a ideia do inferno é justificada única e exclusivamente para atender ao capricho do diabo, e nada mais.
Trazendo para a nossa realidade cotidiana: a punição brutal justifica-se apenas para inflar o ego de quem pune, nunca para educar o punido. Quando um chefe se ofende com o erro de um funcionário e o castiga, na maioria das vezes ele não faz isso para ajudá-lo a melhorar, mas apenas para exibir o tamanho do seu poder, da sua indignação e da sua própria ignorância.
Como Lidar com o Erro Intencional?
Você deve estar se perguntando: o que fazer, então, com quem decide deliberadamente pelo errado?
A resposta mais dura, porém necessária, é: oferecer amor e empatia também. Porque nada além do exemplo mudará o caminho dessa pessoa. Pode ser que eu não saiba lidar com isso perfeitamente ainda, e não tem problema, desde que eu não decida fazer o errado com ela em retaliação.
Cada caso é um caso e, às vezes, é necessária uma ação enérgica. Mas o que diferencia a mera punição de uma atitude corretiva justa é, novamente, a intenção.
Afastar um funcionário do cargo apenas pensando em atingi-lo é uma punição vazia. Mas afastá-lo para evitar danos maiores, mantendo o foco no ser humano e sugerindo uma ação de melhoria (uma capacitação, uma remoção para um setor onde ele se encaixe melhor), tem um peso completamente diferente. Até uma exoneração pode ser justificada, desde que não seja encarada como uma “lição moral”, mas sim como uma oportunidade de readequação.
A minha intenção nas relações é lembrar sempre que o todo é formado por muitos “uns”, e que olhar cada “um” desses mais de perto não machuca. Pelo contrário, é esse olhar cuidadoso para a intenção individual que nos impede de sermos injustos.
Se você errou, antes de mais nada, certifique-se de que sua intenção era caminhar pela estrada certa. A partir daí, o erro é só mais uma lição, e o sucesso é apenas uma questão de tempo. A intenção é o que dita o nosso destino; o erro pode ser aprendido e corrigido.
Resumindo tudo isso: pergunte-se por que você está fazendo o que está fazendo. Você perceberá que errar não é tão trágico assim. Muito pelo contrário: só erra quem sai da inércia e tem a coragem de tentar fazer o certo.
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