O Foco na Necessidade, Não na Acusação

​Quando estamos em uma discussão ou em um conflito, nossa tendência natural é enfatizar os problemas que vemos no comportamento da outra pessoa. Apontamos o que ela fez, o que ela falou e o mal que nos causou. No entanto, Marshall Rosenberg, o criador da Comunicação Não Violenta (CNV), diz algo transformador: todo conflito nasce de uma necessidade não atendida.

​Imagine uma situação em que alguém diz algo e eu me sinto ofendido. Quando vou tentar solucionar o conflito, se eu simplesmente disser “você me ofendeu”, eu não estou comunicando qual é a minha necessidade. A outra pessoa pode não entender o motivo da minha ofensa, pois, na cabeça dela, ela falou algo normal.

​A maneira mais simples de começar a desvencilhar e resolver o problema é dizendo qual é a minha necessidade e o que eu estou sentindo. Quando a gente acusa, a primeira reação do outro é se defender. Então, o primeiro ponto é evitar a acusação e os adjetivos. O segundo ponto é falar sobre o próprio sentimento: “Olha, essa sua fala me deixou constrangido.”

​Diante disso, em vez de se defender, a pessoa (se ela se importa com a relação) vai tentar entender por que a fala dela causou esse constrangimento. Fica muito mais fácil gerar conexão.

​Os Quatro Passos Simples para Simplificar Conflitos

​Não precisamos buscar teorias complexas na hora do estresse. Quanto mais tentamos resumir e simplificar, mais resultados positivos obtemos. Para isso, podemos usar os quatro passos da Comunicação Não Violenta:

  1. O Fato (Observação): Dizer o que aconteceu, sem julgar. “A gente estava numa discussão, eu falei X e você falou Y.”
  2. O Sentimento: Dizer o que aconteceu com você, sem colocar a outra pessoa como a vilã protagonista. Buscar dentro de si a emoção. “Quando você falou Y, eu me senti constrangido.”
  3. A Necessidade: A partir do que você sentiu, identificar o que você precisa. “Eu fiquei constrangido porque eu gostaria de ter uma relação mais simples e clara com você.”
  4. O Pedido: Fazer um pedido claro e prático. “Será que a gente poderia ter uma relação menos ácida e mais calma, para construirmos uma amizade mais sincera?”

​O Mito da Doação Infinita e a Autocompaixão

​Confesso que, às vezes, tenho receio de me aprofundar na CNV porque tenho a impressão de que ela exige que eu me doe constantemente para as pessoas. A ideia de me doar infinitamente, e de forma indistinta, me faz pensar na energia que vou gastar. Será que vou precisar me doar para sempre? E como é que eu fico? Quando terei essa energia reposta?

​Marshall Rosenberg aborda isso sugerindo a autocompaixão: pensar em nós mesmos e cuidar de nós como se estivéssemos cuidando de outra pessoa. Já tentei e funciona. Mas ainda estou amadurecendo a ideia de que a CNV não significa ser eternamente complacente.

​Eu sou ser humano. Tenho o direito de me posicionar e de nem sempre receber a pessoa de maneira puramente altruísta. Tenho minhas exigências e limites. Posso não ter uma linguagem pacífica e imutável 100% do tempo, mas se eu tenho a nota 10 como objetivo, mesmo que eu não tire um 10, estarei sempre orbitando próximo a ela.

​Curiosidade, Paciência e Humildade

​A Patricia Capeluto, especialista no tema, fala muito sobre algo que eu gosto: a curiosidade. Eu acho “empatia” uma palavra com um significado lindo, mas ela ficou um pouco desgastada recentemente, muito apropriada por discursos políticos. Então, prefiro usar a curiosidade.

​Para melhorar as relações, preciso colocar algumas medidas difíceis em prática:

  • Curiosidade: Quando alguém faz algo que eu não gosto, em vez de despachar a pessoa, eu me pergunto: Por que ela fez isso? Será que ela realmente quis me machucar dessa forma? É buscar autoconhecimento e tentar entender a situação antes de reagir.
  • Paciência: É a pausa necessária. Respirar, contar até 10, 20 ou 30. Deixar o pensamento automático acalmar antes de tentar resolver qualquer coisa.
  • Humildade: Talvez o passo mais difícil. É a humildade para vencer o próprio ego. Quando alguém faz algo que não gosto, a vontade imediata é me colocar em uma posição de superioridade: “Ela está errada, eu estou certo”. O ego nos impede de resolver o problema.

​O Equilíbrio Entre Razão e Emoção

​Descobri uma coisa na prática: para lidar com uma situação de extremo estresse emocional (quando ocorre um sequestro no nosso sistema límbico), precisamos ser inteligentes e usar a razão para acalmar os ânimos. Por outro lado, se a situação está excessivamente racional, fria e tensa, usar um elemento emocional pode ser a chave para quebrar o gelo e diminuir a pressão. Para a emoção, use razão. Para a razão, use emoção.

​No fim das contas, eu só dou o próximo passo para resolver um conflito se julgar que vale a pena. Não vou fazer isso por puro ego ou para provar que consigo persuadir o outro — até porque não gosto da persuasão, acho forçado. Se a relação é digna e vale o esforço, eu uso a humildade, dou o primeiro passo e procuro a pessoa. Mas, se foi algo bobo, em que me ofendi à toa, o melhor, muitas vezes, é simplesmente deixar para lá.

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