
Por Que Separar o “Pessoal” do “Profissional” é uma Grande Ilusão
Existe uma corrente de pensamento corporativo, enraizada desde sempre, de que o bom profissional é uma “máquina de trabalho”. Segundo essa visão, o profissional ideal é aquele que não sente, não reclama, não pensa em nada além do trabalho, bate metas absurdamente altas e, se tem problemas familiares, jamais demonstra.
O grande problema que vejo nisso é a premissa de que podemos separar o lado profissional do pessoal. Isso é impossível, porque somos uma coisa só. A pessoa que está sentada à mesa trabalhando é a mesma que, horas atrás, acordou em uma casa com questões familiares. Ela pode ter pendências financeiras, um filho com dificuldades na escola ou estar enfrentando uma crise no casamento. Eu não vejo como alguém pode simplesmente sair para o trabalho e deixar todas essas questões na porta de casa.
O Extremo da Falta de Filtro: O Caso Ritchie Blackmore
Para ilustrar isso, gosto de usar o exemplo do Deep Purple, uma banda mundialmente excelente. Eles começaram com o guitarrista Ritchie Blackmore, um músico de altíssimo nível técnico, que praticamente criou um estilo ao misturar música clássica com rock — algo que influenciou gigantes como Yngwie Malmsteen.
Apesar de ser inegavelmente um músico diferenciado, Blackmore tem um problema que esbarra nos meus princípios: a forma como ele lida com as próprias emoções. Ele tem um temperamento muito difícil e não faz questão de ser amigável. Se ele não está bem, deixa isso claro para todo mundo e não quer ser incomodado.
Na sua última turnê com o Deep Purple, o clima já era péssimo. Blackmore chegou ao ponto de não subir mais ao palco; ele ficava tocando escondido atrás de uma parede de amplificadores. O público ouvia a guitarra, mas não via o guitarrista. Ele só aparecia na frente do palco para os solos mais importantes e, às vezes, ainda fazia gestos sarcásticos para os colegas de banda.
Há uma cena famosa em que o vocalista, Ian Gillan, faz uma reverência irônica, como um súdito apresentando um rei, para que Blackmore entrasse no palco. Irritado, Blackmore pega um copo de cerveja e joga na plateia, continuando a tocar com a cara amarrada.
Por que estou contando isso? Porque Blackmore é o exemplo clássico de alguém que não conseguia conter nem filtrar suas emoções. Ele levava seu mau humor e seu temperamento difícil para o “ambiente de trabalho” (o palco) e descontava em todo mundo.
Sentir Não é o Problema, o Problema é Descontar
É fundamental entender que conter emoções não significa não sentir. Você pode chegar ao trabalho de mau humor porque teve um dia ruim em casa, e não há nada de errado nisso. O problema não é estar num dia difícil e produzir menos; o problema é você chegar ao trabalho e descontar a sua raiva nos seus colegas.
A verdadeira inteligência emocional compreende que temos problemas fora dali e que existe uma sazonalidade no nosso comportamento. Tem dias em que você está ótimo, sorridente e altamente produtivo. Em outros, você simplesmente se recolhe. Respeitar essa dificuldade interna sem transferir a frustração para quem está ao seu lado é o xis da questão.
No outro extremo de Blackmore, temos a figura de Silvio Santos. Durante os últimos 40 anos em que o acompanhamos na TV, ele sempre apresentou o mesmo sorriso, o mesmo tom de voz e os mesmos gestos. Nunca o vimos de mau humor. Se ele tem uma inteligência emocional tão evoluída a ponto de não deixar absolutamente nada transparecer no ambiente de trabalho, isso é um caso atemporal a ser estudado.
Autoconhecimento: O Antídoto para o “Sequestro Emocional”
Sentir não tem nada de errado. O perigo surge quando o que sentimos nos leva a imaginar que os outros estão fazendo um juízo de valor sobre nós, nos vendo como fracos. Mais grave ainda é quando esse juízo de valor de fato acontece e começa a prejudicar nosso trabalho ou influenciar o comportamento da equipe.
É por isso que o autoconhecimento é tão crucial. A partir do momento em que sei o que estou sentindo e por que estou sentindo, começo a entender meu próprio comportamento. Ganho repertório para antecipar e prevenir situações com as quais não lido bem.
Prevenir nem sempre significa evitar, mas sim aprender a lidar. É mudar a perspectiva para não permitir o que chamamos de sequestro emocional. Quanto mais me conheço, mais racionalmente lido com os gatilhos que me desequilibram. O que eu conheço, eu domino; o que eu não conheço, me domina.
A Força da Vulnerabilidade
No final das contas, quase todas as situações que exigem inteligência emocional convergem para um denominador comum: a vulnerabilidade.
Essa é a conclusão a que cheguei observando o meu próprio comportamento. O Edilson é uma pessoa só, dividida em vários ambientes. Permitir-me ser quem eu sou em qualquer lugar — guardadas as devidas proporções emocionais — significa aceitar a minha vulnerabilidade. Eu não tenho peito de aço. Eu sei que não tenho e sei que não vou ter.
Quando assumo que sou vulnerável, que sinto as coisas e que estou em um esforço constante para lidar com esses sentimentos de forma saudável — seja para não afetar meus colegas de trabalho, minha família ou meus amigos —, eu tiro um peso enorme das costas. Ao entender e abraçar essa vulnerabilidade, consigo transitar com muito mais verdade e leveza por todos os círculos da minha vida.
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