
A Parábola do Caracol e as Múltiplas Verdades
Dois monges caminhavam por uma plantação quando um deles quase pisou em um caracol. Rapidamente, ele pegou o pequeno animal e o tirou do caminho, salvando sua vida.
O outro monge, irritado, questionou: “Como você pode salvar esse caracol? Ele vai devorar nossas plantações!” O primeiro defendeu-se: “Toda vida deve ser preservada.”
Um terceiro monge, que a tudo assistia intrigado, sugeriu que levassem a questão ao grande sábio do monastério.
Diante do mestre, o primeiro monge argumentou: “Sábio, eu salvei uma vida, e toda vida deve ser preservada.” O sábio assentiu: “Você fez o certo. Você tem razão.”
O segundo monge protestou: “Mas sábio, esse caracol vai devorar nossas plantações! Para preservar a comida do nosso povo, deveríamos acabar com essas pragas.” O sábio ponderou e disse: “Muito bem pensado. Você tem razão.”
O terceiro monge, sem entender nada, interpelou o mestre: “Mas sábio, como você pode dar razão para duas opiniões diametralmente opostas? Ou um tem razão, ou o outro tem!” O sábio olhou para ele, sorriu e respondeu: “Sim, meu filho. Você também tem razão.”
A Ilusão de “Ter Razão”
Essa história ilustra com perfeição a dinâmica dos nossos embates diários. Primeiro, porque sempre achamos que a nossa perspectiva é a certa e a do outro é a errada. Segundo, porque quando acreditamos ter a razão, queremos impor a nossa opinião à força.
O problema é que essa imposição gera, de forma automática, uma reação de defesa e de contra-ataque na outra pessoa.
Muitas vezes, entramos em um conflito e não conseguimos mais sair dele exatamente por essa necessidade implacável de convencer o outro de que a nossa verdade é a única aceitável. A grande questão que deveríamos nos fazer é: identificar quem “tem razão” vai realmente ajudar a solucionar o problema? Vale a pena entrar, ou prosseguir, nessa briga só para provar um ponto?
O Método Importa Mais Que o Resultado
Na maioria das vezes, não é apenas o resultado final que faz a diferença, mas sim o método. É possível atingir um objetivo de várias formas, mas no calor da situação, tomados pelo sequestro emocional, costumamos fazer as piores escolhas.
A carga emocional nos faz insistir na vitória do ego. Quando o pensamento está focado apenas em nós mesmos (em provar que estamos certos), nós alimentamos o conflito. Porém, quando o pensamento se volta para a relação — ou seja, para o que vai sobrar depois que a discussão acabar —, as chances de resolvermos a questão de maneira pacífica e transparente multiplicam-se.
A Coragem de Se Desarmar
Se um conflito for inevitável, a primeira medida a ser tomada é se desarmar.
Eu sei que é difícil. Desarmar-se significa expor a própria vulnerabilidade; parece o mesmo que entrar em um tiroteio sem colete à prova de balas. Mas o que muda o jogo é entender que, na grande maioria das vezes, estar em um conflito não nos fere de verdade; somos nós que nos deixamos ferir ao assumirmos o papel de vítimas.
Quando compreendemos que o todo de um ambiente é formado por muitos “uns”, percebemos que olhar cada “um” desses mais de perto, prestando atenção à sua individualidade, não machuca. A outra pessoa, mesmo quando age de forma reativa, está apenas expondo uma necessidade não atendida, uma insatisfação. Tomada pela emoção, ela faz isso da pior maneira possível. Um ataque verbal indevido é, no fundo, apenas um grito mal articulado de quem não sabe se comunicar.
Se ambos se deixarem levar pela carga emocional, o diálogo morre. Alguém precisa ter a maturidade e a responsabilidade de colocar a conversa de volta nos trilhos. Reconhecer a dor por trás da agressividade do outro nos dá a tranquilidade necessária para não revidar. Afinal, a paz não mora com quem tem a razão, mas com quem sabe o que fazer com ela.
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