O Instinto de Sobrevivência e a Necessidade de Pertencer

Desde os tempos das cavernas até o topo da pirâmide de Maslow, quando se trata de necessidades básicas, o cérebro humano tende automaticamente para a criação de um ambiente colaborativo. Foi exatamente essa necessidade de conversar, de se relacionar, de estar em grupo, de compartilhar, falar e ouvir que facilitou deixarmos as cavernas para trás e garantiu a nossa sobrevivência.

Essa é a grande motivação que nos move há milhões de anos. A socialização é uma reação natural, impulsionada pelo nosso próprio cérebro. No entanto, entre a ação (o que acontece) e a reação (o que fazemos), há um universo isolado que paradoxalmente está em constante comunicação com ambas: o pensamento.

A Ponte Incontrolável:
Ação → Pensamento → Reação

Segundo o psiquiatra Aaron Beck, pai da Terapia Cognitivo-Comportamental, a nossa reação não é consequência direta da ação, mas sim do pensamento que tivemos sobre ela. Logo, uma ação gera um pensamento, e este gera uma reação.

Esses pensamentos automáticos, ou diálogos internos, habitam permanentemente o nosso cérebro. É impossível tomarmos ciência de algo através de qualquer um dos nossos 5 sentidos e não produzirmos um diálogo interno. Isso acontece o tempo todo. Agora mesmo, enquanto você lê este texto, está acontecendo!

Podemos afirmar que os diálogos internos são a forma mais elementar de comunicação. Numa conversa consciente com outra pessoa, eu ouço, penso, concluo, avalio se a minha conclusão deve ser expressa, filtro e, só então, interajo. Com os diálogos internos, a velocidade é outra: eu ouço e, sem que eu perceba, eles já aconteceram.

As principais características dos diálogos internos:
  • São automáticos e muito velozes.
  • Misturam-se aos pensamentos conscientes.
  • São espontâneos (não resultam da nossa vontade direta).
  • Têm sempre relação com as nossas emoções.
  • Possuem forma verbal, de sons ou de imagens.
  • São quase sempre aceitos como verdadeiros e absolutos, não sofrendo críticas iniciais.
  • São abastecidos pelas nossas crenças mais profundas e veladas.

Para uma conversa tradicional acontecer, são necessárias pelo menos duas pessoas. Para um diálogo interno acontecer, basta estar respirando.

A Anatomia de um Problema

São os diálogos internos que regem nosso comportamento e a nossa forma de interpretar a vida. Para entender como isso funciona na prática, precisamos dividir as partes de um problema:

  1. Ambiente: Externo e fora do controle do indivíduo.
  2. Pensamentos: Internos.
  3. Emoções: Internas.
  4. Reações físicas: Internas.
  5. Comportamentos: Internos (expressos externamente).

Trazendo isso para uma situação real, digamos que você enfrente um problema de popularidade negativa no ambiente de trabalho (Ambiente). O que se desenrola a partir daí internamente?

  • Pensamento/Emoção: Inveja, animosidade, insegurança, medo e tristeza.
  • Reação Física/Comportamento: Choro, depressão, reclusão e confinamento.

Educando a Própria Mente para a Felicidade

Se tudo começa no diálogo interno — se é ali que se forma o molde de todas as coisas, onde avalio minhas sensações, oriento minhas reações e pavimentou minhas relações —, então o diálogo interno é uma das chaves mestras para a felicidade.

Educando os diálogos internos a interpretar as ações de forma mais serena, reações mais leves serão geradas, refletindo em relações interpessoais muito mais saudáveis. Investir no reposicionamento desses pensamentos pode ser a resposta para uma vida feliz, relações mais gentis e um ambiente de trabalho seguro.

A Verdadeira Evolução (Saindo da Caverna)

Se os pensamentos automáticos são formados pelas nossas crenças mais profundas, está tudo dentro do nosso cérebro. No entanto, os pensamentos críticos e negativos costumam estar mais presentes. Essa é a nossa herança da luta pela sobrevivência e preservação da espécie; uma espécie de sistema de defesa inconsciente. De certa forma, ainda nos encontramos nas cavernas, lutando por nossas vidas e nossa segurança nos dias atuais.

O grande desafio passa a ser evoluir de fato. E, neste caso, evoluir não significa criar equipamentos tecnológicos com Inteligência Artificial ou povoar outros planetas.

A evolução real acontece internamente. Ela ocorre ao reduzirmos as barreiras sociais e comportamentais, ao aceitarmos as diferenças e ao exercitarmos a tolerância. É entender que o todo é formado por muitos “uns”, e mostrar aos servidores — e a qualquer pessoa à nossa volta — que olhar cada “um” desses mais de perto não machuca; pelo contrário, é o que nos transforma em verdadeiros provedores de segurança psicológica. É amparar, acolher e compreender que dependemos uns dos outros. A importância da interação é mútua, e isso, definitivamente, não vai mudar.

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