O Clichê: “Não Leve Para o Lado Pessoal”
Todo mundo diz que a saída mais inteligente quando nos encontramos em um conflito é não revidar. Dizem que devo entender que aquela reação não é dirigida a mim e que responder ao conteúdo da reação é a pior decisão possível.
O problema é que eu acho incômodo simplesmente ouvir ou ler alguém dizendo: “Não responda. Essa reação não é para você.”
É comum encontrar textos com esse conselho superficial, dizendo que a pessoa “está fora de controle”. Para mim, isso é insuficiente. Falar o que eu devo fazer é fácil; eu quero saber como isso funciona. Quais são as ferramentas eu preciso conhecer para realmente entender que a reação não é sobre mim e, assim, não absorver aquela carga negativa?
Foi por isso que decidi criar uma espécie de manual. Vou traduzir, passo a passo, o que significa a ordem de “não aceitar” uma reação e fornecer uma maneira verdadeira de não nos ofendermos com as grosserias que chegam até nós. Nesses últimos anos, tenho estudado bastante e vou embasar cada passo desse processo na ciência e na psicologia.
Vamos entender por reação qualquer ação tomada para me desestruturar. Pode ser um xingamento, um gesto de desprezo, uma vitimização, uma difamação, uma exposição indevida ou qualquer outro comportamento que tenha a intenção de me constranger, me culpar ou me envergonhar.
A Relação Vale a Pena?
A partir de agora, estou me colocando no conflito em primeira pessoa, não como um mediador externo. Alguém teve uma atitude reativa. Como escapo dessa primeira armadilha?
Antes de usar qualquer teoria psicológica, faço uma inferência pessoal: eu só vou investir na resolução de um conflito se aquela relação for importante para mim.
Se a relação for familiar, afetiva ou profissional (onde preciso de um ambiente amistoso para que meu trabalho flua), tenho interesse em resolver a questão. Mas, se é alguém com quem não tenho contato e de quem não dependo, então resolver este conflito não será uma prioridade pessoal.
Mas mesmo que a relação não esteja na lista de prioridades, ainda posso me fazer uma segunda pergunta: qual o grau de cordialidade que estou disposto a manter com essa pessoa? Se não houver vínculo nenhum, tenho a opção de simplesmente deixar para lá. Abandonar o conflito é deixar como está e entender que isso não vai mudar a minha vida.
Ainda assim, decidindo resolver ou não o conflito, vou precisar, e muito, ter conhecimento dos passos a seguir.
Compreendendo a Ofensa (A Perda do Argumento)
A primeira coisa que preciso entender é que quando uma pessoa decide agredir, xingar, se vitimizar ou cometer um ato de menosprezo, ela tomou essa decisão porque perdeu a capacidade de argumentar.
O centro normal das relações é o argumento, a conversa, o debate. Se a pessoa chegou ao ponto da grosseria, ela está em uma situação de desequilíbrio incomum. O fato de ser contrariada e não saber lidar com isso desperta vários gatilhos: ela se sente desprotegida, tem a autonomia invadida, sente medo de perder a popularidade, de ter a reputação manchada ou de sentir culpa e vergonha.
Ela entrou em um modo de defesa profundo. A única coisa que ela quer com a reação é silenciar, afastar ou diminuir a outra parte. Esse tipo de neutralização do outro é uma característica de quem não tem habilidade para resolver conflitos.
As Três Camadas do Conflito
Eu enxergo o conflito em três camadas:
- Superficial: A raiva, o xingamento, o atrito.
- Intermediária: O medo que motiva o atrito (medo de perder a autonomia ou algo que lhe é de direito).
- Profunda (A Origem): A camada do pertencimento.
Isso tem uma relação fortíssima com nosso instinto de sobrevivência. Simplificando: nós ainda somos homens das cavernas. A evolução tecnológica aconteceu, mas do ponto de vista humano, ainda conservamos os instintos básicos de proteção. Quando a pessoa reage, o cérebro dela está, na verdade, tentando zelar pelo seu instinto primitivo de sobrevivência e pertencimento.
A Mecânica do Pensamento Automático
Como essa confusão toda acontece na cabeça do outro (e na nossa)? Para explicar isso, recorro a Aaron Beck, pai da Terapia Cognitivo-Comportamental.
Costumamos ouvir que “toda ação gera uma reação”. Beck diz diferente: toda ação gera um pensamento, e todo pensamento gera uma reação.
Durante a infância, crenças e valores são inseridos em nós. Eles funcionam como moldes. Tudo o que vivenciamos é checado e comparado com esses valores. Quando uma informação externa destoa dos nossos moldes subconscientes, acontece um processo de rejeição.
Essa rejeição gera um julgamento, que por sua vez produz um pensamento automático. O pensamento automático é o gatilho que gera a reação física (fechar a cara, sentir o estômago revirar) e comportamental (mais reatividade).

Esse processo de receber a informação incompatível, julgar e ser vítima do pensamento automático leva milésimos de segundo para acontecer. Não temos controle sobre ele. O cérebro assume esse pensamento como regra absoluta e instintiva. Nas cavernas, esse processo automático nos salvava de um tigre dente-de-sabre; hoje, ele nos faz explodir porque alguém roubou nossa vaga no estacionamento.
As principais características dos pensamentos automáticos:
- São automáticos e muito velozes.
- Misturam-se aos pensamentos conscientes.
- São espontâneos (não resultam da nossa vontade direta).
- Têm sempre relação com as nossas emoções.
- Possuem forma verbal, de sons ou de imagens.
- São quase sempre aceitos como verdadeiros e absolutos, não sofrendo críticas iniciais.
- São abastecidos pelas nossas crenças mais profundas e veladas.
Por Que a Reação Não é Sobre Mim
Quando digo que a reação não é dirigida a mim, é porque a pessoa que reagiu foi vítima de uma cadeia de processos incontroláveis do próprio cérebro. Ela achou uma informação incompatível com os valores dela, julgou e o cérebro acionou o alarme de sobrevivência, produzindo a reação. Ela acha que está me atacando, mas, na verdade, está apenas tentando proteger a si mesma das próprias inseguranças.
Tomar conhecimento desses processos inconscientes é o começo da minha própria tomada de consciência.
Olhando por uma ótica filosófica, o imperador estoico Marco Aurélio dizia que se algo externo me machuca, na verdade sou eu que permito ser machucado. Na prática, uma fala reativa é apenas uma frequência sonora, um ruído chegando aos nossos ouvidos, assim como o barulho de um carro. Então, por que isso me atinge?
Porque, ao ouvir a fala reativa, eu também sou vítima do processo de Aaron Beck. A reação choca com meus valores (“o respeito deve pautar toda relação”), gera um julgamento (“essa pessoa está sendo desrespeitosa”) e produz o meu próprio pensamento automático (“alguém precisa ensiná-la a ter respeito”), deflagrando a minha raiva e a vontade de revidar.
E, no momento em que a minha raiva surge, me deparo com uma bifurcação. É aí que o verdadeiro autocontrole começa. Quando a reação chega e a vontade de revidar ferve, eu tenho a opção de descarregar essa raiva (o caminho da reatividade impulsiva) ou de dar um passo para trás, olhar a situação com mais abrangência e optar por uma alternativa mais racional que não alimente o conflito.
É exatamente nessa bifurcação que entram as ideias de Daniel Kahneman sobre como tomar decisões rápidas versus decisões analíticas, e os conceitos de B.F. Skinner sobre como o meu comportamento de não dar continuidade ao atrito molda o resultado da relação. Além, é claro, do próprio papel da biologia evolutiva e de Darwin na origem dessa raiva. Mas a mecânica exata de como escolher o caminho certo nessa bifurcação será o assunto do próximo texto.
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