
Mapeando o Conflito na Nossa Mente
A ideia de mapear o conflito através da trajetória das informações no nosso cérebro nos leva a uma descoberta fascinante: muitas vezes, estudos defendidos por teóricos diferentes acabam se encontrando. Isso demonstra que as sensações e emoções que percorrem o nosso corpo não seguem por um único caminho isolado; elas transitam por vias que se cruzam.
É exatamente isso que vamos ver agora.
De acordo com os estudos de Aaron Beck (que vimos no texto anterior), quando uma informação externa entra em choque com os nossos valores internos, surge uma incompatibilidade. Essa incompatibilidade gera um sentimento de rejeição e, consequentemente, um julgamento.
É a partir desse momento do julgamento que dois gigantes teóricos se encontram no nosso mapa mental: Aaron Beck e Charles Darwin.
Beck explica que, a partir do julgamento, teremos uma reação física e comportamental. Darwin, por sua vez, entra para explicar que, após o julgamento de ameaça, surge a raiva.
Na verdade, observando a fundo, a raiva surge antes da reação física e comportamental. O julgamento dá lugar à raiva, e é a raiva gerada por esse julgamento que motiva a nossa reação final.
O Alarme Sensorial: A Raiva Como Ferramenta
No momento da raiva, normalmente, é quando as pessoas tomam as decisões mais trágicas. Mas, do ponto de vista da resolução de conflitos, o ideal é educarmos o nosso cérebro para interpretar a raiva não como um gatilho para a explosão, mas como uma luz vermelha.
A raiva deve ser vista como uma sirene indicando que cheguei no meu limite. A partir do momento em que ela toca, eu preciso fazer uma pausa e analisar a situação com mais calma e frieza.
A raiva que deflagra a violência é consequência direta da herança ancestral que carregamos. É a raiva da proteção, despertada pelo sentimento de ameaça. Ela surge quando o nosso instinto primitivo acredita que estamos perdendo algo (seja território, respeito, razão ou autonomia).
Se eu entender a raiva como um sinal de alerta, terei ao meu dispor o melhor alarme sensorial que poderia imaginar. O disparo desse alarme está diretamente relacionado ao funcionamento do meu cérebro no exato momento em que se inicia a formação daquilo que virá a ser uma agressão. A raiva surge no início do processo — daí vem a importância vital de aprender a lidar com ela.
A Encruzilhada: Ceder, Reprimir ou Administrar?
A partir do momento em que entendo a raiva e aprendo a utilizá-la como uma ferramenta de monitoramento do meu estado emocional, ganho grandes condições de administrar os meus conflitos. É o entendimento (ou a ignorância) do funcionamento desse alarme que vai determinar se eu vou me envolver em um grande embate ou se poderei neutralizá-lo ainda durante a sua formação.
Pois é nessa bifurcação — no exato momento em que o alarme da raiva dispara — que a existência do conflito será decidida.
A sabedoria e o autocontrole vêm quando conseguimos compreender a raiva com um propósito. Sentir raiva é normal. Ceder à raiva é instintivo e perigoso. Entender a raiva é administrá-la.
Mas atenção: administrar a raiva não significa sentir a emoção, ficar em silêncio e ser consumido por esse sentimento ruim. Conter a raiva apenas para não alimentar a briga, sem processá-la, é um perigo silencioso. Isso significa acumular ressentimento represado, que em algum momento vai explodir de uma maneira muito prejudicial.
- Ceder à raiva é dar uma “resposta à altura”. É ser controlado pela emoção da outra pessoa e provar que você não tem controle das próprias emoções. Ceder à raiva alimenta o conflito.
- Não ceder à raiva é estar consciente de que o alarme tocou e que alguma coisa precisa ser feita de forma não-destrutiva. É ter clareza de pensamento para saber que o conflito pode ser resolvido por um caminho mais saudável, com a consciência da delicadeza e da fragilidade da situação.
Quando eu decido não ceder à raiva, eu preciso ter um propósito. Preciso saber o porquê de não revidar e qual será o meu próximo passo rumo a um ambiente seguro para mim e para o outro.
O Próximo Passo: Quem Está no Controle?
No próximo texto, vamos descobrir que ainda há um passo crucial — um milésimo de segundo decisivo — entre a raiva e a sua reação final.
É exatamente o controle emocional operando nessa fração de tempo que vai decidir se o conflito acontecerá ou não. Esse controle emocional é explicado pelo psicólogo Daniel Kahneman, através de seus célebres estudos sobre a nossa mente: o Sistema 1 (nosso lado rápido, automático e emocional) e o Sistema 2 (nosso lado devagar, analítico e racional).
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