
A Falsa Ilusão do Silêncio
O que significa, de fato, resolver um conflito? Essa questão é muito mais complexa, profunda e desafiadora do que parece à primeira vista.
Na minha vivência, especialmente observando a administração pública, já vi com certa frequência “soluções” que são meras ilusões. Vejo sugestões de separação física de pessoas ou uma ordem direta de um superior hierárquico determinando uma mudança forçada de comportamento. Tudo isso como uma maneira de silenciar os envolvidos.
Conheço pessoas que são a favor de abrir um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) ao invés de buscar a resolução real do conflito. Elas acreditam que a imposição da vontade de uma terceira pessoa (um juiz ou superior) é a forma ideal de apaziguar as coisas. Na minha opinião, isso é o pior cenário possível. Um PAD envolve uma terceira opinião sobre o problema, como se já não bastassem as duas que estão em atrito.
Um conflito é, em sua essência, uma incompatibilidade de necessidades. Uma cabeça pensa de um jeito, a outra discorda, e surge a intenção de cada um impor a sua própria vontade, acreditando que o outro está errado. Partindo desse cenário, eu pergunto: qual é a efetividade de mudar duas pessoas de setor, separá-las fisicamente ou puni-las, acreditando que isso resolve algo?
Quando duas pessoas são silenciadas por uma punição ou por uma ordem, o que acontece é apenas a extinção do barulho do conflito. O conflito em si continua existindo dentro delas e, de uma certa maneira, torna-se até mais forte e enraizado do que no início.
A Verdadeira Resolução: O Todo e as Partes
Não vou tratar aqui das ferramentas técnicas (mediação, arbitragem, negociação). A minha ideia é refletir sobre o que efetivamente significa resolver o problema.
Resolver um conflito significa ouvir. Significa entender a necessidade de cada uma das partes e encontrar pontos em comum para que ambos se sintam atendidos, ao mesmo tempo em que compreendem a importância da dor do outro. Necessariamente, para resolver um impasse, cada um vai precisar ceder um pouco.
No final, o ideal é que as partes se sintam atendidas e se sintam corresponsáveis pelas necessidades dos outros.
Para ilustrar, gosto de um exemplo bem didático:
Cenário: Imagine dois irmãos. O caçula passa a maior parte do tempo em casa e tem uma necessidade enorme de brincar e gastar energia. O mais velho é adolescente, já estuda, tem uma rotina mais pesada e gosta de sair com os amigos.
Certo dia, o irmão mais velho chega em casa cansado, querendo apenas ir para o quarto, fechar a porta e ficar no celular. O menor, que passou o dia esperando, imediatamente o aborda exigindo atenção.
A Situação: O irmão mais novo se frustra com a recusa e grita: “Você é muito chato! Nunca quer brincar comigo, você só liga para os seus amigos lá fora!”
O que o irmão mais velho escuta? “Ele é um mimado que não me deixa em paz. Ele não entende que eu estou cansado, que eu tenho a minha própria vida e preciso do meu espaço.”
O que o irmão menor está realmente dizendo? “Eu passei o dia todo esperando você chegar porque sinto muito a sua falta. Você é a minha maior referência de diversão e eu me sinto sozinho e deixado de lado quando você me ignora.”
Esse exemplo demonstra perfeitamente que a importância não está em focar nas palavras acusatórias (“você é chato”), mas sim em compreender o que cada um está sentindo. A partir do momento em que o irmão mais velho entende que a raiva do caçula é, na verdade, admiração e saudade, e o caçula entende (dentro da sua capacidade) que o irmão precisa de um tempo para “desligar” do mundo lá fora, cada um olha para o outro de forma diferente.
O esperado é que o mais velho procure atender à necessidade do irmãozinho, dedicando meia hora de brincadeira exclusiva e focada antes de se isolar. Por outro lado, o caçula, sentindo-se atendido, terá muito mais facilidade em ceder e deixar o irmão descansar no quarto depois. O conflito se dissolve porque ambos se sentiram importantes.
A Anatomia dos Microconflitos e o Fator “Timing”
Uma condição primordial para o sucesso é a importância da relação. Se eu tenho um problema com alguém, mas essa relação não tem importância para mim, talvez seja mais saudável investir minha energia em outro momento. O timing é tudo. Forçar uma resolução sem entender se as partes estão prontas para retomar o convívio significa correr o risco de agravar a situação.
Olhando por um prisma mais detalhado, percebo que os grandes atritos raramente nascem grandes. O que chamamos de “conflito” é, na verdade, o acúmulo de microconflitos que se tornaram pesados demais.
Pelo ponto de vista da eficiência, a resolução de conflitos deve ocorrer no dia a dia: numa fala polêmica, num tom de voz alterado, numa palavra mal colocada. Na hora, pode parecer insignificante, mas são esses pequenos nós não desatados que trazem o mal-estar que, muitas vezes, sequer conseguimos explicar.
Resolver conflitos é um trabalho diário. Acontece nas conversas de corredor, nas relações de trabalho, no bate-papo em casa. Quando eu desenvolvo a habilidade de resolver (ou evitar) os microconflitos em tempo real, eu me torno um facilitador da comunicação. Para isso, preciso observar mais e falar menos. Entender que a minha opinião nem sempre é importante para aquele contexto é um passo gigante rumo à maturidade emocional.
Os 4 Níveis da Inteligência Emocional (E Onde Eu Estou)
Dentro da inteligência emocional, existem 4 níveis de competência:
- Incompetência Inconsciente: Não tenho habilidade para resolver conflitos e nem sei que não tenho.
- Incompetência Consciente: Descubro que não tenho as habilidades necessárias, reconheço minhas falhas e começo a tentar me desenvolver.
- Competência Consciente: Começo a colher resultados, mas preciso pensar ativamente e calcular minhas ações para agir certo.
- Competência Inconsciente: A habilidade já está internalizada. Relacionar-me pacificamente é algo natural, que flui sem esforço.
Sendo muito honesto? Atualmente, eu me encontro na Incompetência Consciente.
Eu já descobri as minhas falhas e tenho uma boa ideia do que preciso fazer. Porém, ainda me encontro numa batalha sangrenta contra a minha própria biologia.
Falo como um ser humano que traz heranças ancestrais forjadas na necessidade de lutar por alimento, abrigo e proteção. Essa é uma realidade biológica que Charles Darwin mapeou brilhantemente em seu livro A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, mostrando de onde vêm as nossas reações mais instintivas e primitivas.
Diante de um ataque, a minha herança genética diz: “Enfrente!”. Mas eu quero que o meu cérebro diga: “Pacifique”.
Tomar essa decisão exige um esforço sobrenatural. O maior desafio da minha vida tem sido renegar a própria natureza; permitir que as palavras ásperas cheguem até mim e encontrar, racionalmente, uma forma de não deixar que elas me firam.
Por isso, tenho me aprofundado tanto nos ensinamentos do estoicismo de Marco Aurélio e no behaviorismo de B.F. Skinner. Acredito firmemente que a repetição formará os meus novos hábitos e me guiará até as minhas virtudes.
Hoje, eu erro uma vez, erro novamente, e erro outra vez. Mas retorno ao passado, revejo os meus tropeços e tento aprender. Atualmente, eu ainda deixo muitos microconflitos passarem despercebidos e, quando me dou conta, o grande conflito já se formou à minha frente.
Mas o primeiro passo já foi dado: eu entendi o que precisa ser feito.
Vou em busca da prática, expondo a minha vulnerabilidade e me permitindo não reagir. Tudo isso na esperança de que, um dia, contrariar milhões de anos de herança genética deixe de ser uma tortura diária. Caminho em direção ao dia em que poderei tratar as minhas relações de uma forma definitivamente evoluída, vivenciando a paz na sua forma mais plena.
Deixe um comentário