Eu sempre escuto que a convivência humana é muito difícil. Embora em alguns momentos eu concorde, ando querendo mudar esse pensamento em mim — e confesso que venho sendo colocado à prova com frequência.

Tenho uma natureza inquieta; gosto de buscar o ponto original, a explicação nuclear por trás das atitudes das pessoas. E um dos grandes desafios que encontrei é aceitar que não existe uma “fórmula mágica” ou uma receita padrão para resolver os atritos da convivência. Cada pessoa é um universo diferente.

De tudo que estudei nos últimos anos, concluí algo desconcertante: a resposta para os conflitos não está no outro, nem no problema em si. A resposta está dentro de mim. As outras pessoas me dão o porquê, mas é em mim que encontro o como. E para lidar com qualquer embate, primeiro preciso conhecer os meus limites, as minhas necessidades e como eu racionalizo a atitude do outro.

O Desafio da Violência Passiva

Atualmente, sinto que dei um passo importante. Entendi, graças a autores como Aaron Beck e o estoico Marco Aurélio, que uma ofensa direta (um xingamento, por exemplo) só me machuca se eu permitir. Compreendi que a agressão é apenas a prova da incapacidade da outra pessoa em lidar com seus próprios valores feridos. Se eu sei quem sou, o que o outro pensa não me define.

Porém, existe uma modalidade de conflito que ainda é meu grande desafio: o ostracismo e a retirada emocional, que funcionam como uma violência passiva. São aquelas situações em que não há agressão verbal, mas sim a negligência de valores importantes. É quando a transparência e a confiança de uma amizade são quebradas, e percebo que minha presença na relação não era tão importante quanto eu imaginava.

Buscando uma forma de lidar com esse sentimento de vulnerabilidade e “descarte”, encontrei refúgio — e algumas contestações — na teoria da Hierarquia das Necessidades de Abraham Maslow.

As Necessidades Individuais vs. As Necessidades Sociais

Maslow divide as necessidades humanas em cinco níveis: Fisiológicas (1), Segurança (2), Pertencimento (3), Estima (4) e Autoatualização (5).

Para facilitar meu entendimento, dividi essas cinco necessidades em três grandes grupos:

  1. Necessidades Individuais (1 e 2): Todos precisam de fisiologia e segurança, independentemente de qualquer situação.
  2. Necessidades Sociais (3 e 4): Pertencimento (vínculos íntimos como família e amigos próximos) e Estima (vínculos superficiais como colegas e clubes). São necessidades externas.
  3. A Evolução (5): A Autoatualização.

O grande problema, na minha visão, mora exatamente nas Necessidades Sociais (3 e 4). Elas são baseadas na busca por validação. Para me sentir pertencente ou estimado, preciso que o outro me aprove. O dilema é que eu não controlo as pessoas. As pessoas admiram quem elas querem, de forma espontânea, e não porque eu exijo.

A Herança Genética e a Armadilha da Aprovação

A chave para entender essa busca por validação está na nossa herança genética. Na época dos nossos ancestrais, ser aceito pelo grupo não era uma questão de ego; era uma questão de vida ou morte. Quem fosse expulso morreria de fome ou atacado por um predador. Sobrevivia quem era útil e aprovado.

Hoje, não precisamos de um grupo para não morrer de fome ou escapar de predadores, mas o nosso corpo ainda não sabe disso. Continuamos sofrendo as consequências emocionais daquela época através de um mecanismo conhecido como ‘sequestro da amígdala’: o nosso sistema límbico — a parte rápida e instintiva do cérebro — processa uma ofensa ou uma exclusão social hoje com o mesmo desespero com que processava o risco de morte física no passado. A necessidade biológica de sobreviver transformou-se na necessidade psicológica de ser aceito. O medo primitivo de ser devorado tornou-se o medo moderno de ser julgado.

E é exatamente por causa desse engano evolutivo que as necessidades 3 e 4 se tornam uma armadilha cíclica. Quanto mais busco validação, mais expectativas eu crio sobre os outros. Como as expectativas quase sempre são maiores do que a realidade pode entregar, eu me frustro. A frustração gera o conflito, onde eu culpo o outro. Ao me sentir vulnerável (o velho medo da rejeição), corro para outro grupo buscando nova validação. E o ciclo recomeça. Quem vive preso nessa armadilha passará a vida ofendido, frustrado e insatisfeito.

A Ilusão do Pertencimento e a Realidade do Amor

A diferença entre “Estima” e “Pertencimento” é apenas a intensidade da relação. A estima (fazer parte de um clube ou empresa) tem uma relação clara de utilidade: você é aceito enquanto for o artilheiro ou enquanto der lucro. Mas o pertencimento é visto como incondicional, especialmente dentro das famílias ou nos relacionamentos.

É aqui que apresento a minha visão menos romântica sobre o amor. Não acredito no amor do arrebatamento, algo inexplicável e indomável. Para mim, o amor é uma escolha e uma decisão. É a expectativa de construir uma vida feliz e tranquila ao lado de alguém com quem compartilho interesses. E como pessoas envelhecem e mudam suas visões de mundo, essa expectativa também pode mudar. Se as pessoas mudam, o amor pode, sim, acabar.

Se uma relaçao de amor possui condições (fazer bem ao outro) e pode acabar, então o “pertencimento” incondicional não existe. Tudo se resume a graus de intensidade do “fazer parte”. Se eu crio expectativas absolutas sobre as pessoas, a culpa da minha frustração é minha, não de quem mudou.

Essa minha visão utilitária e condicional das relações dialoga profundamente com o que o próprio Abraham Maslow definiu em sua obra ‘Motivation and Personality’ (1954) como D-Love (Amor de Deficiência). O D-Love é aquele baseado na falta: eu ‘amo’ o outro porque preciso da validação e do pertencimento que ele me fornece. É uma relação de dependência. Em contrapartida, os autoatualizadores que alcançam a independência emocional vivenciam o B-Love (Amor pelo Ser), onde a relação existe sem a necessidade desesperada de validação. Eles não cobram que o outro preencha seus vazios.

O Salto para a Autoatualização

Por tudo isso, eu divirjo da teoria original de Maslow. Não acredito que as necessidades 3 (Pertencimento) e 4 (Estima) sejam degraus obrigatórios para se alcançar a necessidade 5 (Autoatualização). Na verdade, para mim, elas são autoexcludentes.

Quem precisa de validação para viver nunca será um autoatualizador. E quem é um autoatualizador, definitivamente, não precisa de validação.

A minha teoria é que, após garantir a sua segurança (necessidade 2), o indivíduo tem dois caminhos:

  • Cai na armadilha de buscar validação (necessidades 3 e 4).
  • Ou vai direto para a independência emocional da Autoatualização (necessidade 5).

Os autoatualizadores são pessoas focadas na criatividade e em se tornarem pessoas melhores, não em agradar aos outros. Eles têm plena consciência de que as relações humanas são frágeis e passageiras. Eles investem nas relações com baixo nível de expectativa e, por isso, frustram-se muito menos.

O fato de eu não ver sentido na teoria de Maslow, da forma como foi proposta originalmente, me levou a não considerar a hierarquia das necessidades e a pensar numa nova organização, como uma árvore, na qual os galhos não necessariamente seguem um caminho “hierárquico” em direção ao sol.

A Evolução Real

Os autoatualizadores representam, para mim, a personificação da verdadeira evolução emocional. Hoje, nós vivemos debaixo de um protocolo frágil de sobrevivência chamado “civilidade” — somos educados até o primeiro momento de pressão, quando o instinto primitivo de defesa aflora. O distanciamento real desse ser humano instintivo só acontece quando atingimos a independência emocional.

Importante: não depender de validação não significa negligenciar as pessoas. Manter o respeito nas relações é vital para a nossa natureza social. A convivência em grupo atende a uma necessidade da natureza humana; já a busca por validação é apenas uma vaidade individual.

Quando aprendemos a nos desarmar, a não criar expectativas irreais e a respeitar o limite das relações sem exigir aplausos constantes, aí sim, vislumbramos uma fagulha da verdadeira evolução humana.

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