Daniel Kahneman encerra uma etapa importante dentro da minha mente e entrega o processo para uma fase seguinte, igualmente decisiva na gestão do conflito.

A depender de como eu processei a situação, Kahneman vai entregar um “pacote” diferente: pode ser um conflito inflamado pelo Sistema 1 (reativo) ou um conflito já pacificado pelo Sistema 2 (racional). Quem receberá essa entrega serão B.F. Skinner e Marco Aurélio, que darão prosseguimento ao tratamento dessa informação.

Para essa etapa, tanto Skinner quanto Marco Aurélio trabalham com a força do hábito, mas a partir de perspectivas diferentes que, no final das contas, se complementam com perfeição.

Skinner e o Condicionamento do Ambiente Externo

Skinner, com a sua Teoria do Reforço, trabalha o hábito fazendo uma conexão direta com o ambiente — tudo aquilo que está externo à nossa mente. Ele diz que nós moldamos o ambiente e, simultaneamente, somos moldados por ele.

  • Quando recebo um conflito pelo Sistema 1: Caso Daniel Kahneman entregue um conflito inflamado pelo Sistema 1 — dominado por aqueles pensamentos automáticos e instintivos descritos por Aaron Beck —, o meu cérebro acolherá o embate, e a Teoria do Reforço de Skinner entrará em ação. Ao abraçar o conflito, o ambiente me condiciona e essas situações se tornam cada vez mais familiares para mim. Como eu também sou o “ambiente” para o outro, a forma como reajo às provocações moldará o comportamento dele. O meu contra-ataque despertará o sistema de defesa da outra pessoa, que também sentirá necessidade de revidar. Isso explica a famosa frase “violência gera violência”. É um processo cerebral de defesa herdado dos nossos antepassados: naquela época, diante do perigo de animais selvagens, a única maneira de sobreviver era aprimorando o sistema de defesa e contra-atacando.
  • Quando recebo um conflito pelo Sistema 2: Caso eu decida não abraçar o conflito, a Teoria do Reforço continua trabalhando, mas a mensagem é exatamente contrária à provocação. Ao receber um convite à inconsciência e não responder, a minha intenção clara é dar um basta, não alimentando a necessidade de revide do outro. Sendo assim, o desejado é que o meu comportamento inspire e molde o outro a também frear o ataque. Eu espero desenvolver o hábito de não alimentar embates, criando ferramentas para apaziguá-los na esperança de ser uma influência racional e positiva para o ambiente.

Marco Aurélio e a Indiferença Construtiva

Enquanto Skinner foca no exterior, o estoicismo de Marco Aurélio me dá a oportunidade de trabalhar internamente. Ele me ajuda a desenvolver hábitos fortalecendo as minhas virtudes.

A ideia central é que, quanto mais eu consiga apaziguar um conflito, mais natural isso será para mim. Tendo a naturalidade e a capacidade de não responder ao conflito e deixá-lo morrer, a necessidade de revide perde a importância. Isso abre novos horizontes, permitindo que eu olhe para as pessoas com mais respeito e entenda que a agressão é apenas uma falha de comunicação. Como se trata do desenvolvimento de virtudes, a esperança é que esse comportamento se torne um ciclo virtuoso, cujas repetições apenas me fortalecerão para ajudar transformar o mundo em um lugar melhor.

A filosofia estoica de Marco Aurélio nos direciona e fundamenta uma postura conhecida como Apatheia, mas que na gestão de conflitos moderna, podemos chamar de indiferença construtiva. Apatheia significa estar livre das emoções destrutivas e irracionais que perturbam o equilíbrio mental.

Ao não alimentar o conflito, estou mostrando de forma positiva para o outro que essa é a forma mais digna de se resolver uma divergência. A indiferença construtiva não é o desprezo, pois ela não age diretamente diminuindo a outra pessoa. Seu foco é neutralizar o conflito sem menosprezar a presença do outro.

A ideia da indiferença construtiva é valorizar o outro, permitindo que ele se expresse e dando-lhe oportunidades de resolver esse conflito sem escolher o caminho do enfrentamento. De certa forma, Marco Aurélio já nos preparava para os ensinamentos modernos de Marshall Rosenberg, apresentando a difícil habilidade de validar o outro sem concordar, sem menosprezá-lo e sem alimentar o conflito. É uma posição cirúrgica e estratégica que, sendo bem utilizada, garantirá que a decisão já tomada de não dar continuidade ao conflito se consolide definitivamente.

O Próximo Passo: Olhar para o Outro

Ao não responder ao conflito, ao passar a mensagem de que ele não prosseguirá daqui para frente e indicar que há formas mais tranquilas e transparentes de se lidar com uma divergência de opiniões, a minha esperança é que a tensão perca a força. E caso isso tenha acontecido, esse é o gancho perfeito para a próxima etapa da gestão desse conflito.

Até aqui, eu estou olhando especificamente para o conflito e para a forma como eu me livro dele. No próximo artigo, eu já começo a olhar especificamente para o outro.

E eu já entro para uma tarefa muito difícil, que é me desarmar e mostrar que armas não são necessárias. Vou tentar estabelecer uma relação de igualdade com o outro para que a conversa não seja poluída por medo e desconfiança. Dentre as personalidades da história que contribuíram para essa linha de pensamento, vou tomar a liberdade de citar Carl Rogers e Amy Edmondson para me ajudar a olhar nos olhos do outros, dissolver esse conflito e seguir por um caminho pacífico.

Deixe um comentário